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A Lira do Delírio

“A Lira do Delírio” não é um filme de fácil embalo, desses que alimentam uma (quase) que imediata imersão do espectador no universo que se revela a sua frente. A sensação geral é de uma espécie de improviso, um improviso que se pretende trasmutar em obra viva, liberta, lírica. O elenco não passou por ensaios, não havia um roteiro propriamente dito, e o fato dos atores emprestarem seus nomes reais às personagens (com excessão de Anecy Rocha e seu “Ness Eliot”, no melhor estilo dama da noite) só contribui para essa premissa, uma abertura criativa para o que a ‘realidade’ tem a oferecer. A duração das cenas também obedece a essa tônica diferenciada, submetida menos a um ritmo e causalidade narrativos, e mais às possibilidades suscitadas pelo momento nas interações do elenco com os ambientes e/ou não atores.

A história propriamente dita é (propositadamente) confusa, composta por situações que aparentam não possuírem decorrências lógicas – a parte inicial do filme, envolvendo a personagem de Anecy e uma bolsa com drogas, é um ótimo exemplo disso, visto que somente após um considerável tempo de desenvolvimento fílmico ela será retomada, fazendo o espectador se perguntar sobre a existência de uma estrutura maior para a narrativa. Em certos momentos essa experimentação narrativa se revela particularmente promissora, e creio que isso tem como razão principal a habilidade de determinados atores lidar com interações não planejadas – como as que têm Pereio em destaque, ator experiente de um Iracema e seu inventivo jogo ficção/documentário. Em outros momentos, no entanto, essa vontade de improviso parece chegar às vias de um esgotamento, com o alongamento do núcleo dramático até onde não parece haver mais drama.; a cena no taxi, com uma discussão tematizada no eixo ‘Mas e aquele bagulho?’ e ‘Ah, cara, vamos pra Lapa…’ parece traduzir isso claramente.

Exploração de nudez e sexo à níveis temáticos – ficando evidente suas intenções pornochanchadescas -, forte vontade de deboche. Acredito que a parte mais instigantes do filme, no entando, não seja a que embarca nessa experimentação noturna urbana/marginal/erótica, e sim as captadas durante o carnaval em Niterói, consideravelmente distinta do restante do filme. A cena em que Anecy interage com os foliões é de uma força impressionante, viva e pulsante, misto de ingenuidade e luxúria com a (incontrolável) violência da liberdade carnavalesca.

Para finalizar, palavras do próprio Walter Lima:

“A idéia era fazer um filme musical a partir de canções de carnaval, acho que era assim, uma idéia litero-musical. E teria sido desta forma se o carnaval daquele ano não nos envolvesse tanto. No carnaval, o consciente é inconsciente. É a subversão psíquica onde a catarse vence. E assim nos perdemos na festa e quando a gente se perde no carnaval vale dizer que o descobrimos… ”

Carla Italiano

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