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Aviso aos Navegantes

É, de certa forma, fundamental iniciar um módulo que se pretende a estudar o cinema brasileiro exibindo uma chanchada. Não por um simples resgate histórico curioso ou uma revalorização rasa de uma expressão artística considerada baixa. Mas pela possibilidade de vislumbrar algumas relações que o cinema, como arte espetacular, desencadeia  na cultura nacional.

Antes que se faça um juízo de valor, é preciso dizer que a chanchada foi peça chave na revitalização do cinema nacional, quase extinto com a invasão de filmes americanos nas décadas de 20 e 30. A Companhia Cinematográfica Atlântida tornou-se conhecida como a grande produtora de chanchadas, realizando filmes extremamente populares como Aviso aos Navegantes, Nem Sansão Nem Dalila, O Homem do Sputinik e Carnaval Atlântida.  Criada por José Carlos Burle e Alinor Azevedo em 1941, a produtora pretendia promover a industrialização do cinema brasileiro e, de maneira despretensiosa e popular, realizou filmes ininterruptamente por cerca de 20 anos.

Como gênero, a chanchada limita-se à certos expedientes: números músicais (de preferência carnavalescos) intercalando a história de um mocinho que precisa vencer alguma adversidade, com o auxilio de um par de personagens engraçados e humildes, derrotando o vilão no final e ficando com a mocinha. As músicas são as que fazem sucesso tanto no carnaval quanto no rádio, interpretadas muitas vezes por cantores famosos como Carmem Miranda e Francisco Alves. A chanchada cria para si até mesmo uma espécie de starsystem tupiniquim, com astros constantes: o papel do mocinho ficava a cargo de Anselmo Duarte ou Cyll Farney, enquanto José Lewgoy invariavelmente interpretava um vilão. Mas os galãs não faziam tanto sucesso, quem realmente o público queria ver eram os comediantes, como Oscarito e Grande Otelo, que reprisaram a parceria em inúmeros filmes.

A trama de Aviso aos Navegantes chega ser caricata, um decalque hollywodiano constantemente interrompido por número musicais desprovidos de qualquer intenção dramatúrgica. Em meio a essas intrusões músicais, desenrola-se uma aventura em um cruseiro, envolvendo artístas, passageiros clandestinos, espionagem e hipnose. O que alguns defendem como paródia, parece mais uma imitação tecnicamente inferior. Paulo Emílio Salles Gomes defende possuirmos uma “incompetência criativa em copiar”, que provém de uma crise de identidade: “Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de uma cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é.” Se é assim, toma-se a linguagem hollywoodiana como grau zero e, na incapacidade física de copiá-la com maestria, debatemos-nos em imbuí-la de alguma brasilidade.

Contudo, esse tipo de elucubração nunca chega a tornar-se um discurso dentro da chanchada. Análises como essa surgirão apenas após a busca por origens promovida pelo Cinema Novo, que irá jogar esse cinema popular para o gueto intelectual do cinema industrial, em defesa de um cinema autoral. Dessa forma, enquanto olharmos a chanchada por ela mesmo, as palavras se esvaem, restando apenas uma: ingenuidade.

Thiago Santana

Sugestão de Leitura:
BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro; propostas para uma historia.. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
EMÍLIO, Paulo. Cinema: trajetoria no subdesenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. 101p.

1EMÍLIO, Paulo. Cinema: trajetoria no subdesenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. p. 88.

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