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Das Tripas Coração

Os modernistas já alertavam a sociedade, através de suas obras, de um impiedoso patriarcalismo no sistema social brasileiro, que se refletia na arte, com uma hierarquização e canonização de autores do sexo masculino em detrimento de autoras femininas. O espaço da mulher na arte ao longo dos tempos se limitou ao uso de sua imagem como reflexo de seu papel na sociedade, ou foi abafado pela própria estrutura de poder. Até o período do Cinema Novo, no Brasil, as cineastas mulheres não tratavam da condição feminina em seus filmes; usavam quase exclusivamente do melodrama (e suas variações) para reproduzir os estereótipos ou protótipos que a sociedade as sujeitava.

     A trilogia que compõe “Mar de Rosas", “Das Tripas Coração” e “ Sonho de Valsa” assinala o início da produção ficcional de Ana Carolina. Desde que começara sua carreira no cinema com a produção de documentários, ela afirma que suas preocupações estariam motivadas pelos problemas enfrentados por sua geração, “ou seja, a geração que segurou o rojão de 1968, uma geração que pensou que ia matar a charada, ficou alegre com essa possibilidade, mas que, no fim, levou aquela cacetada que todos nós vimos e vivemos”.

     Às observações de que a trilogia de Ana Carolina prima pela subjetividade, contrapõe-se a percepção do caráter crítico de sua produção. Revela-se pertinente à questão proposta por Jean-Claude Bernardet ao comentar Mar de rosas, a partir de sua visão de um cinema que não se coloca acima dos questionamentos que pretende abordar: “Estes filmes serão apolíticos ou menos políticos que os outros?”. Nas palavras do autor, “certamente eles não exibem um significado político explícito, não são impostados ao nível do discurso habitualmente tido como político e sociológico. Nem pretendem que o público assimile determinada mensagem específica que os resumiria”. Mas isso impediria de serem compreendidos em sua dimensão política? Para Luís Zanin Orichio, a política é o aspecto mais flagrante na trilogia como um todo: “Usando como mote o domínio de pais sobre filhos, de professores sobre alunos, ou de homens sobre mulheres, procura tocar no cerne mesmo da sociedade autoritária”. Seus personagens estão sempre, de alguma forma, deslocados, daí o tom quase sempre exasperado e delirante na composição dos atores.

     Em outras palavras, as vivências das personagens femininas, expostas em seus conflitos cotidianos e, por vezes, até subjetivos, excluem discussões em torno do poder, do enfrentamento da autoridade e das tentativas de ruptura? Nos questionamentos e demandas trazidos à tona no processo de efervescência política e cultural vivenciado naqueles anos, política e subjetividade não se excluem. 

Carolina Gesser

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