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Eles Não Usam Black-Tie

Eles não usam black-tie (1981) de Leon Hirszman não é bem uma “adaptação fiel” à peça escrita por Gianfrancesco Guarnieri (ator e co-roteirista do filme) em 1956. O diretor buscou alternativas que transpõem, transfiguram e transcendem a obra inicial. Mas do que valeria fazer uma cópia “fiel” da peça teatral para o cinema? Hirszman mantém a estimada fidelidade e o respeito à obra-prima não visando à repetição anacrônica daquilo que já foi feito antes, sua fidelidade se dá no sentimento inicial de produzir uma obra que toque racionalmente o público.

    O filme se passa na industrial São Paulo, é um tempo de uma lenta e gradual abertura política, de aumento do desemprego, achatamento salarial, autoritarismo nas fábricas, greves e o fortalecimento do movimento sindical. Diferentemente da peça, que acontece inteira no ambiente familiar, aludindo (nunca mostrando) os acontecimentos por meio de interlocutores, tal como uma unidade de espaço aristotélica, Hirszman busca um espaço social mais amplo, e a cidade se torna um personagem, “a fábrica existe assim como a repressão policial", diz o diretor em seu livro É bom falar (1995).

    Assim também é a rua, local da confusão e do banditismo, a casa continua sendo o local da comunicação familiar, no qual ocorrem os grandes entraves narrativos. A cena do confrontamento final entre Tião e Otávio, acontece no quintal (espaço entre a casa e a rua) onde não há muito a se dizer, “é um instante envergonhado… conversa que se dá às escondidas” 1. Diferente do confronto entre Tião e Maria, que acontece no quarto, o maior local de intimidade, onde é colocado “em panos limpos” a verdadeira essência do caráter dos personagens. 

    Maria é a personagem que mais transcende o seu papel na transposição da peça para o filme. Encontramos nela uma profundidade bem maior, ela também é operária, não submissa aos homens. Maria sonha em ter uma vida digna, mas não a qualquer preço, ela é idealista e não se “vende” como Tião. O que no filme a impede de seguir com o namorado não é o medo passar fome sem os amigos da favela e perder sua raiz, como na peça, seu maior descontentamento é a fraqueza do namorado em não lutar por nenhum ideal, que não seja o dele próprio. As personagens femininas de Hirszman são marcantes, elas possuem uma força “romana” e não se abatem.

     Bráulio é outro personagem que ganha grande destaque no filme. Junto com Otavio, fazem a frente racional do movimento grevista. Este, no filme, aparece desarticulado, sem adesão da categoria, enfraquecido pelo grande poder repressor e em função de caráteres individualistas de operários como Tião, que possui o grande temor contemporâneo: o de ser pobre. 

    Eles não usam black-tie não possui inovações em sua linguagem cinematográfica, é clássico e direto, mas possui em certas cenas um lirismo imagético muito bonito. Isso se vê quando Otávio e Romana estão escolhendo feijão, em uma cena silenciosa depois do enterro de Bráulio. Ela chega a intentar colocar mais um copo de feijão, que seria destinado a Tião, e desiste.

     Apesar das mortes e do afastamento de Tião, o filme mantém a esperança de mudanças: o filho de Maria que irá nascer com os ideais do avô paterno e, apesar da repressão, a luta e a greve que continuam. O filme é “uma gota que agita a poça imóvel” 1   
 

Rodrigo Ramos

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