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O Cangaceiro

A Cia. Cinematográfica Vera Cruz tinha por objetivo um patamar genuinamente industrial, que traria ao cinema nacional – este sempre numa constante histórica de alicerces frágeis – o desenvolvimento e a excelência necessários para conceber uma “produção brasileira de padrão internacional”, distante da proposta popularesca da chanchada carioca. Durou pouco. A Vera Cruz teve quatro anos – e pouco mais de vinte filmes – de vida. Estabelecida nos anos de 1950 em São Paulo, com instalações grandiosas, profissionais e equipamentos importados, sucumbiu ao peso de sua própria estrutura, que se revelara dispendiosa e equivocada para o mercado brasileiro. Dentre as produções do estúdio paulista, a mais contundente talvez seja O Cangaceiro, de Lima Barreto.

Lanço a provocação por duas razões: primeira, por ser O Cangaceiro exemplo sintomático do modelo de produção da companhia, em sintonia com a lógica industrial e o modo estilístico clássico do cinema de Hollywood. É improvável que o espectador, hoje, não encontre no filme de Barreto elementos que remetam ao mais emblemático dos gêneros do cinema americano, o western. Poderíamos nos referir aos planos gerais grandiosos que inserem os cangaceiros na paisagem de uma caatinga “cenográfica” (o filme foi rodado em São Paulo), e emolduram o retrato que se desenrola no passo rigoroso de um cinema espetáculo, ou ainda à trilha sonora eloqüente, que mescla a balada sertaneja à grandiosidade operística. De outro lado, temos a característica disposição maniqueísta das forças na trama, o bem e o mal como matrizes de personagens caricatos, a violência como impulso essencial e o amor como elemento de redenção, além de uma recusa em historicizar o contexto social no qual se inserem todos os conflitos do enredo.

O Cangaceiro toma uma distância confortável do tempo e espaço que propõe representar. É inspirado por uma “época: imprecisa, quando ainda haviam cangaceiros”, e pela imprecisão livra-se da sua obrigação para com a História. Não nos é oferecida qualquer explicação para a existência do cangaço. Tendemos a vê-lo não como conseqüência de um certo processo politico-social, mas como dado estratificado de um tempo arcaico imutável. Embora oscilante entre os movimentos de exaltação (como manifestação legítima do homem sertanejo) e condenação (moral) do cangaço, o filme não enfrenta seu objeto, preferindo uma contemplação morna do espetacular idealizado da vida daqueles homens fora-da-lei.

Finalmente, a segunda razão para vê-lo dessa forma reside em sua trajetória. O filme de Lima Barreto foi o mais bem sucedido da Cia. Vera Cruz, arrebatou dois prêmios no festival de Cannes e foi exibido em mais de 80 países. O que seria a salvação de uma Vera Cruz já em má situação financeira na época do lançamento, não o foi. Os direitos de distribuição d’O Cangaceiro haviam sido previamente vendidos a preço fixo para a Columbia Pictures, que tomou para si todo o lucro que o filme proporcionou. O estúdio paulista fecharia as portas um ano depois, em 1954: A falta de um aparato eficaz de distribuição foi, e continua a ser, um dos maiores problemas do nosso cinema.

Fábio Menezes

Referências:
XAVIER, Ismail. Sertão Mar – Glauber Rocha e a estética da fome. Cosac Naify, 2006.
ROCHA, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. Cosac Naify, 2003.

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