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O Ritual dos Sádicos

"Desculpe, mas Zé do Caixão ficou no cemitério. O senhor está falando com José Mojica Marins" afirma o cineasta em determinado momento de Ritual dos Sádicos. O filme não irá tratar do famoso coveiro como figura real da diegese, mas como personagem, mito produzido pela cultura de massa, símbolo tupiniquim do terror e do mal.

     Um psiquiatra propõe utilizar LSD em viciados em drogas para observar as suas reações frente à figura de Zé do Caixão, como estudo da deturpação causada pelas drogas. Não só pela temática das drogas, quanto pelas perversões sexuais exibidas, o filme foi proibido pelo governo militar, só sendo restaurado e exibido em festivais em 1982 com o nome modificado: ao invés de Ritual do Sádicos o filme foi renomeado para O Despertar da Besta. A premissa da história é parece apontar para um moralismo: boa parte do filme é composta por uma discussão entre o psiquiatra e mais quatro pessoas (entre elas Maurice Capovilla, Carlos Reichenbach e Jairo Ferreira) concatenando cenas que comprovariam que o uso de drogas perverte as pessoas. O ponto de vista de Mojica, no entanto, acaba revelando-sem mais liberal e tolerante do que o esperado, influência clara de um certo espírito da época.

     É possível encontrar uma certa ingenuidade nessa abordagem das drogas, mas, de fato, não é só sobre isso que o filme pretende discursar. A figura de Zé do Caixão é abordada como um bem assimilado pela indústria cultural, explorada na televisão, retratada em quadrinhos e até mesmo em marchinhas de carnaval. A auto-referência de Mojica não é gratuíta, mas soa como uma grande brincadeira sobre a sua face popular dentro de um de seus filmes mais obscuros e complexos.

     É notável, desde Meia Noite Levarei a Sua Alma (1964), o primeiro filme de Mojica com o célebre personagem, o sucesso e a polêmica causada por sua figura, dita como maldita. Pioneiro do gênero horror, seus filmes podem ser taxados de popularescos, porém sua digestão nunca é fácil. Há uma densidade no horror de Zé do Caixão digna de um grande cineasta. Assim como Ozualdo Candeias (que atua em Ritual dos Sádicos), Mojica é tido como primitivo e inculto. Mas esses termos são relativos. A precariedade de seus filmes é óbvia, inevitável devido à falta de recursos. Compensa-se esse primitivismo com uma grande inventividade, um domínio ímpar de suas capacidades e da arte cinematográfica. Mojica pode não ser um grande pensador do cinema, mas conhece o ofício quase como instintivamente, num autodidatismo extraordinário, que apenas a paixão pelo cinema poderia suscitar.

     Sua obra parece anteceder e até inspirar o que seria conhecido como Cinema Marginal. Ritual do Sádicos é realizado em plena efeverscência desse movimento (por mais problemática que seja a configuração desse momento como “movimento”), José Mojica Marins parece alcançar uma maturidade, tanto de seu personagem (a auto-referência, auto-consciência), quanto de sua técnica (o enredo complexo, a montagem exata). Mas é patente que Mojica é um cineasta da maldade, do indizível que é explicitado sem render-se à pornografia. Talvez esse seja o seu maior trunfo: buscar imagens fortes que digam mais do que se suspeita.

Thiago Santana 

http://www.contracampo.com.br/46/despertardabesta.htm

http://www.bocadoinferno.com/romepeige/artigos/desperitual.html

BARCINSKI, André; FINOTTI, Ivan. Maldito. São Paulo: 34, 1998.

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