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O Signo do Caos

 "A imagem do caos é o próprio caos." 

Situar um personagem principal em O Signo do Caos pelo seu tempo presente na tela é negar que todos circundam no ídolo maior de Sganzerla: Orson Welles. It’s All True, o projeto, perdido, filmado no Brasil do americano é o cerne que locomove o emputecido grito de revolta do diretor marginal em sua última obra.

Reduzir a alegoria de O Signo do Caos a uma sinopse do tema que cobre a superfície da obra é chocar o cinema de Sganzerla com aquele o qual ele sempre optou por fugir, o modelo de começo, meio, fim, escancarados.

Filme dividido em duas partes: em P&B, as latas com o material filmado por Welles chegam ao Rio de Janeiro e são encaminhadas para Dr. Amnésio (Otávio Terceiro em atuação genial), chefe-sensor do DIP, para avaliação. Ele as censura, pois as imagens do Brasil diferem das aquarelas descritas na canção de Ary Barroso, zombada no filme nos assobios dos carrascos artísticos. Em cores, os censores comemoram, num festo, a vitória contra a livre expressão artística após a destruição de toda a matéria-prima de It’s All True, enquanto o jornalista, defensor do filme de Welles, reencontra sua noiva no cais, mas esta se revolta ao descobrir que o jornalista perdera o dinheiro para a casa. Referência desse cinema defendido por Sganzerla, que foge do “cinema para massas”, mas em compensação, nesse resguardo não obtém o retorno financeiro desejado na maioria das vezes.

O filme é isso, mas também não o é. O longa é antes um redemoinho de ilógica, crítica, sarcasmo, zombaria embalado pelo jazz caótico de Charlie Mingus (o jazz em sua forma naturalmente desconexa entregue aleatoriamente no acompanhamento do filme. Caos dentro de caos.) do que qualquer tipo de crônica sobre a saga do filme de Welles.

 Movido a repetições, Sganzerla faz um filme resolvido na montagem, ali que ele o impregna de ritmo, de caos diegético, de nostalgia com o emprego da dublagem desconexa nas falas dos atores, mas é ali nesse ciclo de imagens alternadas que Sganzerla exemplifica a própria história do cinema nacional, escrita a soluços, que se ergue em um “movimento cinematográfico” para sucumbir num declive em seguida, retornando à estaca zero, a aguardar uma próxima ressurreição. O Signo do Caos é o antônimo do cinema, é o antifilme, como se descreve em seu início.

Não só crítica à indústria cinematográfica brasileira, a segunda parte de O Signo do Caos traz nas cenas de Camila Pitanga o pensamento do diretor sobre o Brasil: Uma musa-furacão que samba, bebe cachaça e joga a bola de vidro de um pé para outro com a flâmula nacional de1pano2de3fundo.4

O Signo do Caos é o filme que adquire sentido através de sua incoerência, é Sganzerla falando de Welles para falar de Sganzerla, é Djin, exaltada na película perdida, quebrando a quarta parede para convocar a atenção do espectador. Acima de um filme, é a última exaltação de um gênio do cinema nacional, visão carregada da opinião de um homem que viu muito e condensou isso em um aviso zombeteiro. A profecia de seu Bandido deu lugar ao estado presente das coisas. Que o Terceiro Mundo se esculhambou é fato.

Philip Gruneich

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