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Santo Forte

Quais são as potências e os limites da entrevista? Se o cinema de Eduardo Coutinho pretende o registro de uma vivência, uma experiência, é na fala de seus entrevistados – personagens, como ele normalmente os chama – que o diretor pretende encontrá-la. É também possível afirmar que, se o documentário brasileiro hoje em muito prima pelo depoimento filmado como estratégia de registro de uma realidade, é principalmente por influência da força que este dispositivo possui dentro de seus filmes – não só como elemento revelador de uma condição do indivíduo filmado, mas também evidenciando sua própria condição enquanto método – e, finalmente, pela relevância de sua obra para todo um grupo de realizadores, pensadores e apreciadores de nosso cinema.

Em Santo Forte – realizado em vídeo, com baixíssimo orçamento – temos o marco em direção à radicalização de um método de filmar. Primeiro, o que o diretor denomina por “prisão”: a Vila Parque da Cidade, favela da zona sul carioca, como única localidade para as gravações. O objetivo aqui é a realização de um documentário sobre experiências religiosas, e essas experiências devem provir de um local específico, pois não há a intenção de encontrar um sintoma geral, que transcenda o espaço concreto. É nesse recorte geográfico que Coutinho procura por seus narradores – os moradores do local – para compor um filme de entrevistas até as últimas consequências, quase sem dessincronia entre imagem e som, com pouquíssimos planos que não sejam aqueles captados no momento dos depoimentos, mas principalmente um filme montado em função da palavra falada, que privilegia o desenvolvimento de uma narrativa oral. 

É de maneira quase paradoxal que o metafísico ganha vigor na oralidade dos entrevistados: ouvimos pessoas falando sobre seus contatos com espíritos, guias, entidades de religiões afro-brasileiras. São acontecimentos íntimos e extremamente simbólicos para a vida de cada um dos narradores, e é pela fala que apreendemos essa dimensão, na medida em que essas aparições (e suas consequências) estão presentes no corriqueiro do dia-a-dia, incorporadas à vida prática do indivíduo. Inapreensíveis pelo registro, essas experiências têm na desenvoltura narrativa de seus sujeitos o único lugar possível para a existência. Não por acaso, a montagem pontua alguns dos depoimentos com planos de estátuas de santos, pombajiras, pretos velhos, ou mesmo imagens dos espaços onde houve o contato: um quarto de casal, um quintal, uma cozinha, todos vazios. Contra a riqueza e o extraordinário do verbo, apenas a limitação da concretude da imagem. 

Coutinho procura por uma desenvoltura narrativa em seus entrevistados. Talvez por isso goste de se referir a eles como “personagens”: valoriza a expressão diante da câmara, ciente de que não está lá para capturar uma verdade transparente, a essência do indivíduo. Ao contrário, vê a conversa como um território de permanente negociação, choque, importando o momento do encontro, a postura a cada resposta, a cada silêncio, cada passo que constrói uma relação que não se dá à revelia do aparato cinematográfico, mas justamente por causa dele. 

Fábio Menezes

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