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Serras da Desordem

Carapiru é o protagonista da sua própria história. Isso pode soar redundante fora de contexto, porém é exatamente isso que se faz no mais recente filme de Andrea Tonacci, em Serras da Desordem, Carapiru encena momentos de sua vida, a trajetória do índio que depois de ter sua família massacrada foge pelo interior do Brasil e encontra refúgio a 2000 km de distância de sua terra natal, onde faz novos amigos, mas acaba por ter que se afastar deles. O índio reencontra o filho perdido e retorna ao local que cresceu, percebe-se diferente do restante da tribo e volta a se afastar. Mesmo assim, estamos longe de um filme que busca construir uma grande verdade sobre a identidade Carapiru. É difícil compreender a relação que se estabelece entre o personagem e o espectador, se há  momentos em que o índio fala uma língua que nos é estranha e não há tradução.

Não é à toa que o filme se encerre com um registro da própria filmagem, é o filme dentro do filme. A história que nos foi contada começa justamente no fim, o índio que encontra o cineasta para fazer um filme que reconta a trajetória do próprio índio. O que me parece mais caro no filme de Tonacci é colocar em jogo questões como as que Daniel Filho explicita, “o filme trabalha para manter uma tensão desconfiada entre as oposições sugeridas – entre o micro e o macro, entre a natureza e a civilização, entre o indivíduo e a sociedade, entre o histórico e o circunstancial, entre a vida e a representação”. A cena ficcional é porosa e é permeada por todo um mundo que está fora dela.

Outro filme que é ainda mais próximo ao de Tonacci é Iracema – Uma Transa Amazônica, filme de Orlando Senna e Jorge Bodansky que denuncia a destruição que acompanhava a construção da rodovia-sonho do regime militar. Os dois filmes usam de uma construção formal que impossibilita de classificá-los como ficção ou documentário, separar os dois gêneros é difícil. Outro aspecto que estreita as duas produções é a maneira de conseguirem captar a violência da nossa cultura num processo cruel de exploração e destruição de terras em favor a um progresso civilizatório.  Em Serras da Desordem fica implícito o modo como essa grande história se reflete na vida dos indivíduos. De certa forma é parecido com o que Coutinho faz – de forma completamente distinta – com Elisabete em Cabra Marcado Para Morrer. 

Bruno de Alencastro Grandi 

A crítica de Daniel Filho pode ser lida na íntegra no site http://wwww.contracampo.com.br

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