Próximas exibições

Receba a programação por e-mail

Calendário de Exibições

abril 2008
seg ter qua qui sex sáb dom
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930EC

Pesquisar

Textos das sessões passadas

São Paulo S.A.

Plano-síntese: um jovem casal discute em uma sala de classe média, um toque de década de 60, o som da briga abafado pelo isolamento acústico do apartamento. Sobreposta às personagens, a imagem de inúmeros edifícios, o horizonte da metrópole diegeticamente refletido na janela de fora. A separação entre o espaço interno, especificado em detalhes pela decoração da sala e expressões emocionais das personagens, e o externo com sua massa de concreto e vidro não diferenciada, revela-se impossível – o plano os torna indissociáveis, exprimindo a consciência da sublimação de um sobre o outro. A discussão conjugal, drama particular e especificação máxima do indivíduo, se funde ao social, ao ambiente urbano; São Paulo como cidade-símbolo dessa urbanidade, a personagem latente e não humanizada do filme.

A escolha do momento histórico do filme é um dado relevante: a ação transcorre dentro de um recorte muito delimitado no tempo (de 1957 a 1961), e alguns anos antes da época das filmagens. Essa especificação temporal parece ocorrer a fim de melhor refletir o processo de urbanização tão caro à narrativa, e que é simbolizado especialmente pelo plano desenvolvimentista de JK e o boom das empresas automobilísticas. Carlos, personagem principal, está diretamente inserido nessa movimentação: trabalha inicialmente para a Volkswagen, e depois para uma empresa de auto peças como parceiro do desonesto imigrante Arturo, possuindo papel ativo no impulsionamento econômico paulistano. O crítico Francisco de Almeida Salles descreve bem, à época do lançamento da obra, a relação do filme com seus dois pólos de interesse: “O desespero do personagem sensibiliza o filme inteiro, e a cidade, ao fundo, comparece como ré do drama. Em nenhum momento Person distrai-se com a cidade como realidade autônoma. E isto me parece decisivo. A presença catalítica da metrópole existe para dar sentido ao drama, como grades de uma prisão na qual a criatura se debate, pensando libertar-se.”1

O título inventivo do filme exprime bem a reflexão realizada pelo personagem principal sobre a sua existência (o anonimato que transparece na frieza das relações amorosas ou nas implicações de sua inserção no ramo industrial), sendo esse o exercício que costura o filme, e cuja forma – um verbalizado e auto-consciente devaneio – é bastante interessante. O filme é também notável por ser um dos poucos de sua época a retratar o espaço urbano, a classe média e, acima de tudo, a cidade de São Paulo (vale também mencionar o outro notável Noite Vazia, de Walter Lima Khouri). Isso acabou por lhe render a alcunha de ‘exemplar paulista do Cinema Novo’, principalmente pela parecença de abordagem, reflexão em nível social e ousadias estético-formais, assim como nos vários outros planos da concepção cinematográfica.

A cópia a ser exibida é de altíssima qualidade, fruto de recente restauração, que expressa a meticulosidade fotográfica em toda sua potencialidade (nos retratos documentais da cidade ou nas belas internas das fábricas), e evidencia a grandiosidade da obra.

Carla Italiano

Write a comment