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Zezéro
SuperOutro

O cinema deve alcançar a população, ir de encontro a ela; e este cinema é precário, já se percebeu e se deve partir deste ponto: não há recursos técnicos; financeiros, menos. Pouco importa. O Cinema Marginal (ou Udigrudi) e sua ‘estética’ não são, em si, inovações pensadas, o que não é um defeito; eles nascem mais é de um reconhecimento de identidade do cinema de um país em ‘desenvolvimento’.

“O que tem lá na cidade que não tem no meu sertão, que mexeu no teu juízo pra perder toda a razão?”

Um caipira pobre e ignorante, tem uma família pra sustentar e uma vida inteira pra tocar pra frente. Tipo recorrente em Ozualdo Candeias, aqui em Zézero o caipira se apresenta cru, um homem qualquer intermediário entre campo / primitivo e cidade / moderno: enjoa-se com a monotonia do campo mas se atordoa com o movimento da cidade. Neste filme de Candeias, a precariedade se define progressivamente; as linhas que a envolvem aos poucos escurecem e relações políticas e sociais são enxergadas, ramos atrofiados da sociedade torta em desenvolvimento: a comunicação que leva aos desejos, o dinheiro regente e o governo inalcançável e alienante. Zézero é o cidadão perdido, levado pela vida e mais ou menos tendo algumas vontades medianas, inconseqüente. Mas um marginal de suas causas.

Acorda humanidade!” exclama o superoutro do filme de Navarro. Esse grito é o início de sua lúdica saga em busca de respostas, redenção, sexo, atenção e os céus.

Além de aprofundar-se na mente esquizofrênica do protagonista, cheia de escatologias, anarquismo e quimeras, o média-metragem apresenta forte crítica política, neste caso ao capitalismo e à república, em sua zombaria com os diversos meios de propaganda, como pôsteres, outdoors e panfletos e como suas significações são distorcidas em prol da mensagem das cenas. “15 de Nomlembro” explicita seu manifesto contra a república que no país retornava naquele ano.

O ano de 1989 marca a primeira eleição direta pós-ditadura do Brasil e o mandato de José Sarney. Após o ‘boom’ econômico do início da década de 80, o país vivia uma crise. Esse período ficou marcado pela hiperinflação, a moratória e as acusações de corrupção em todas as esferas do governo. Todo esse caos na estrutura nacional foi o palco no qual Navarro cria seu anti-herói, o qual ao mesmo tempo em que tenta adquirir uma normalidade à sua maneira (sua descoberta do sexo pela revista pornô, essa que seria seu único objeto e do qual se livraria para obter sua redenção), também clama por mudanças.

Logo, o mendigo de Bertrand Duarte, com seu desejo de voar, torna-se a nítida metáfora do Brasil esperançoso, que elegeria o jovem Collor como presidente.

Superoutro, o herói às avessas brasileiro nascido de macumba após ver o ícone norte-americano vindo de outro planeta na entrada do cinema, faz de sua loucura seu escapismo da miséria do mundo e o radicalismo que culmina em seu protesto. E tudo isso com uma aura de patriotismo que permeia por todo o filme, especialmente em seu desfecho. 

Phillip Gruneich e Rafael Grigoletto

www.contracampo.com.br/25/zezero.htm

www.heco.com.br/candeias/01.php

www.contracampo.com.br/31/navarro.htm

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