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Bom Trabalho

“Serve à boa causa e morre”. Tatuado no lado direito do peito do sargento-mor Galoup, o emblema evidencia um legionário, expatriado por vontade, homem de armas símbolo de uma tradição caduca baseada na disciplina, na obediência canina. Vê a seus subordinados como rebanho e, a si mesmo, como cão de guarda sob tutela do comandante Forestier. 

      Sua base fica num pequeno país ao norte da África chamado Djibouti. Claire Denis, com a ajuda da câmera de Agnès Godard, transforma as locações em lugares ao mesmo tempo idílicos e hostis. Esse é o paraíso de Galoup, o mundo onde sua única ambição é manter a ordem, e que se contrapõe à aridez cinzenta e solitária de Marselha. Essa é a sua memória. Acompanhamos a história do seu ponto de vista. 

      A câmera, porém, me contradiz e vai além das lembranças. Acompanhar o sargento em sua história é mais do que um flashback imenso; a meu ver, é um complexo de sensações, de valores, que extravasa os limites daquilo que ele mesmo pode contar e ainda assim pode ser representado. Talvez por conta disso Galoup fique cada vez mais isolado no plano, seja afastado de seu rebanho, Sentain cada vez mais destacado. O final, no entanto, novamente me contradiz. 

      Imagino que nesse caso, pelo menos, posso afirmar que a narrativa existe não em função do personagem mas dela própria, pois o importante talvez seja não recontar a história de Galoup e sim poder criar o universo que o rodeia. Essa explicação vai ao encontro da existência de certos planos, como Rahel olhando feliz para a câmera. De alguma maneira, o personagem continua central na trama, mas essa agora já pode se destacar da premissa de acompanhá-lo para orbitá-lo. Em volta dele, encontramos exílio e remorso – sentimento onde, acredita, começa a liberdade –, uma vida conjugada no passado e uma pista de dança vazia; afinal, Galoup só encontra par em seu próprio reflexo.

Francisco Orlandi Neto

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