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Café Lumière

     Se fosse necessária uma definição para um cinema elementar ou puro muitos se atreveriam a dizer que seria um cinema que aborda o cotidiano, que reflete o ritmo da vida comum. Um cinema feito de sons, enquadramentos, imagens. Um cinema tal qual o perpetrado pelos Irmãos Lumière.

     Café Lumière legitima-se desde o título como partidário deste cinema elementar nos lembrando do cinema que, por excelência, retratou as pequenas coisas do dia-a-dia como o almoço do bebê, um jogo de cartas, a saída de fábrica.

     O filme de Hou Hsiao-hsien foi uma encomenda dos estúdios Suchiko para homenagear o centenário de Yasujiro Ozu. Segundo Mark Cousins em seu livro The story of Films, Ozu é o centro do cinema por sua serenidade ao lidar com emoções e pessoas, tratando de banalidades do dia-a-dia dos personagens. Ozu retratava, principalmente, a burguesia japonesa e sua superficiliadade dramática, numa sociedade notavelmente contida.  

     A primeira referencia à Ozu, então, se encontra nos créditos iniciais do filme, com o nome do estúdio onde o cineasta fez sua carreira. E a forma encontrada por Hsiao-hsien de homenageá-lo propriamente foi tratar de temas que lhe eram caros como a maneira peculiar de contemplar o ambiente familiar, sem muitas emoções explícitas.

     O filme conta história de Yoko, escritora que divide seu tempo entre pesquisas e amores no Taiwan e a vida no Japão, sua terra natal. Entre uma viagem e outra ela descobre que está grávida e tem que lidar com os pais conservadores. Hou, o diretor, encontra em Yoko um espelho quando trava na personagem o paralelo inverso de sua própria situação: um diretor taiwanês responsável pela homenagem de um cineasta genuinamente japonês, filmando em terras nipônicas, no idioma local (que lhe era estranho). Yoko não demonstra compartilhar com qualquer tensão existente entre os dois países, assim como Hou.

     “Eu não tinha roteiro linear preestabelecido, simplesmente vagos trechos de diálogos. Eu não quis ver os filmes de Ozu, eu confiei nas minhas lembranças”, afirma Hou que pratica desta forma, o que André Bazin chama de desdramatização: a observação do comportamento destruindo o drama.  Assim, temos o que se pode chamar de cinema de imaginação, um cinema que suspende a frustração do espectador revelando pouca informação, buscando credibilidade ao invés de julgamento.

     Passando por Ozu, que filmava as ruas em diagonais nos intervalos de seqüência e as casas em verticais e horizontais como forma de questionar a estática e a dinâmica do tempo social, Hou Hsiao-hsien faz em Café Lumière uma dupla celebração de propostas de cinema, e comprova que todo o cinema ainda cabe na simples chegada de um trem na estação. Em Café Lumière homenagear Ozu é, na verdade, homenagear o cinema.  

Carolina Gesser

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