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Close-Up

“Queria que eles pensassem que eu, como Makhmalbaf, era um cineasta humilde o suficiente para me misturar aos homens comuns”, responde no tribunal o réu Hossein Sabzian ao cineasta Abbas Kiarostami, quando perguntado sobre o motivo pelo qual quis levar a família Ahankhah para assistir ao filme do cineasta a quem se fez passar.

É na identificação com tal declaração de onde parte a operação do dispositivo em Close-up. Kiarostami apanha o incidente da impostura (fato dado, Sabzian protagonizou a polêmica no jornais iranianos em 1990) e convence os anônimos que o viveram a participarem da reconstituição. Remonta cenas que ilustram e contextualizam a seqüência chave: a do julgamento, captada ao vivo. Entretanto, o lugar na situação onde comumente esperamos que se situe a câmara, o cineasta, o discurso, enfim, o enunciado, parece sumir; ou pelo menos empreender um esforço extra-humano em calar-se.

Não há foco de reflexão nem de juízos de valor sobre aquilo que vemos, afinal, Kiarostami não participa – como no “velho” documentário – da cena para depois comentá-la; não trabalha a transcendência da sua função. Ao contrário, o cineasta procura resolver e/ou abrir as questões ali, a pé de igualdade com o objeto. Quando Kiarostami pergunta algo a Sabzian, a este não se pode dizer que está recebendo a voz porque o primeiro sequer a detém! O cinema, depois de 95 anos, abstrai a sua dimensão na História e torna-se parte natural da vida e, portanto, não opera como porta-voz, mas sim como mais um elemento a interferir na situação retratada. Elemento de mesma importância que o sol, que bate nas faces esquerdas do réu, queixosos e testemunhas, ou a coceira na barba a incomodar o juíz em contracampo (a cena ainda se propõe como documental).

Neste caminho, assumir o cinema supondo a sua naturalidade implica também em aceitar, desarmadamente, a interferência que faz no sentido de trazer o falso à tona. A presença da câmera no ambiente cria um mal-estar que decorre da consciência dos envolvidos de que sua imagem está sendo decantada. Estando ela na superfície de uma tela, perde-se o controle sobre a mesma e a reação primeira de um captado é idealizar uma postura diante da câmera e tentar reproduzí-la. Mas não é isso o que também fazemos numa entrevista, numa conversa ou numa apresentação? Não é uma força estranha que nos leva, constantemente, a atualizar uma alteridade ideal dentro da própria subjetividade? Fingir faz parte da natureza humana e por isso ninguém melhor do que o cinema para interferir em tal processo.

Agora, a riqueza da manifestação desse cinema fecha a sua lógica quando quer documentar uma pessoa que se fez passar por outra, um diretor de cinema. O cinema é a base indireta da amostragem e qualquer contingência o faz emergir. Essa característica específica mais a postura da câmera miscigenada ao ambiente, fazendo o artifício fundir-se à matéria-prima, encerra o espelhamento que ao mesmo tempo problematiza e destrói a velha fronteira entre o documental e o ficcional. Kiarostami forja isso e nós, no desejo do registro vivo, acreditamos em tudo.

Marcos Blasius

Sugestão de Leitura:

BERNARDET, Jean-Claude. Caminhos de Kiarostami. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
FURTADO, Felipe. Captar o Mundo
(sobre Abbas Kiarostami)

KIAROSTAMI, Abbas. Abbas Kiarsotami. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
MONASSA,Tatiane. O “real” em Close-up e Salve o cinema.

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