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Estrada Perdida

Funny how secrets travel… O verso, que acompanha os créditos iniciais, condensa de modo metafórico o universo no qual o filme gravita; a composição da música, de escancarado ar tecnológico, destoa de um David Bowie cuja enunciação lamentativa propagandeia sua própria insanidade (I’m deranged). Para completar, a banda imagética mostra a visão de uma estrada em alta velocidade, deturpada dentro de uma tentativa descontrolada de se manter o controle. Os segredos viajam, de fato.

O elemento da estrada é potencialmente representativo da noção maior de ‘relação humana’, que na história extrapola a esfera da comunicação extra-pessoal para se estender a uma idéia de conhecimento do próprio ‘eu’ extremamente intra-pessoal. Essa multiplicidade representacional da estrada emerge de várias formas: na inabilidade de comunicação entre Fred e sua mulher Renee, na relação de Fred com a realidade habitada (forjada) por ele, na percepção de nuances de sua própria identidade (uma parte aparentemente desconhecida que passa a controlar o todo).

O filme, no que diz respeito ao seu início, pertence a Fred. Nós o acompanhamos e, por mais que não nos seja concedido o conhecimento pleno, temos consciência que algo está errado – é impossível preencher certas lacunas. Mesmo que se trate de uma visão subjetiva, e que essa visão nos mostre uma realidade altamente perturbada, não se pode deixar de acompanhá-la. É por essa razão (além da calculada destreza com que Lynch conduz o enredo) que, quando ocorre a mudança crucial que interrompe a história, a mesma continua a ser seguida, acreditada em seu aparente caos e inverossimilhança. A chegada de Pete marca a saída de Fred, e a manutenção de um mundo que pode até se parecer com o nosso, mas que claramente obedece a suas próprias regras.

Como um jam de jazz, a narrativa tem um ritmo próprio e peculiar, mantendo fortes semelhanças com o tipo de devaneio aparentemente solto e intensamente emotivo que advém do universo musical (não é coincidência o fato de Fred ser um saxofonista). A incorporação de uma variada trilha sonora (de Ramstein à Bossa Nova) contribui para uma contextualização do filme, que juntamente com questões de ordem do tecnológico (as fitas de vídeo, a casa equipada) e a maneira distinta no próprio ‘contar’ são suficientes para posicioná-lo como uma obra distintamente contemporânea.

A incorporação/reprodução de gêneros cinematográficos é presente e consciente, em especial no que se refere ao noir. Além da (óbvia) figura da femme fatale - latente em Renee, mas evidente em seu duplo, Alice – outros personagens, como o mafioso local Mr. Eddie, e até a própria estrutura da história (em particular a segunda parte) mantém similaridades com esse tratamento narrativo. Gênero sobre a traição por excelência, encontra paridade no cerne da relação Fred/Renee e Pete/Alice assim como no assunto que circunda o filme – é justamente esse amor traído que rege a trama.

Mesmo que se possa dizer que a pretensão do filme de ser o “noir de horror do século 21” (intenção abertamente expressa pelo diretor na época de seu lançamento) não tenha sido exatamente alcançada, ou possa se pensar que seu experimentalismo sobre a maneira de contar fique restrito a essa ordem, ele continua sendo uma inovadora investida a respeito da natureza narrativa e, definitivamente, sobre a complexidade da mente humana.

Carla A. Italiano

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