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Textos das sessões passadas

Estranhos no Paraíso

“Bem, eu penso que nossas vidas são feitas de pequenos momentos que não são necessariamente dramáticos, e por alguma estranha razão eu sou atraído por esses momentos. Eu fiz "Night on Earth", que se passa somente em táxis, porque eu sempre presto atenção em filmes nos quais as pessoas dizem, por exemplo, "OK, daqui a pouco estou aí" e você os vê sair do táxi, e eu penso sempre, queria saber como seria esse momento. O momento que não é importante para a trama. Fiz um filme inteiro sobre o que poderia se passar fora dos filmes.”¹

Vimos, no fim do módulo de cinema moderno, a afirmação da crise, ou morte, do cinema através do “Filme de Nick”, por Win Wenders. Isso foi no final dos anos 70. Como, no cinema contemporâneo, se responde a essa afirmativa? Alan Bergala aponta o surgimento daquilo que chama de “maneirismo”, assim como o movimento homônimo do fim do Renascimento. Esses artistas, próximos que estavam de grandes mestres como Michelangelo, Da Vinci,passaram a questionar o realismo e a propor um certo artificialismo nas imagem.  

Na última sessão, no decorrer do debate, levantou-se as semelhanças entre o cinema de Brian De Palma, Antonioni e Hitchcock. O que Brian De Palma faz não é cinema moderno, nem cinema clássico, mas algo posterior ainda fortemente influenciado por esse cinema ainda tão próximo. Jarmusch, por sua vez, já não faz mais cinema moderno, pois os tempos são outros, a contracultura já perdeu fôlego, a massificação se expande, surge a MTV e uma nova cultura de imagem. 

É dessa América televisionada, da cultura pop, desses novos americanos que ele nos fala. Pra tanto, não compõe uma história à maneira clássica, com clímax, drama, falas de efeito, coisas do tipo. Conta com a imagem de planos únicos intercalados por telas negras, primeiro uma ligação, depois a chegada da prima Eva, uma história cujo nexo é construído no que não aparece (não simplesmente o fora de campo, mas o arbitrariamente não filmado). Em contrapartida, seus personagens comentam e experimentam o mundo através de imagens, por exemplo o amigo de Willie, que conhece a Flórida sem nunca ter estado lá, pode descrevê-la sem nunca ter pisado na areia. 

Mas a Flórida não é a mesma que passa na televisão, ou o lago Cleveland, nem Eva se interessa por essas imagens, ou compreende a funcionalidade da TV-food, ela é uma estrangeira nos EUA como Jarmusch é estrangeiro ao cinema moderno, mundo que ele habita e preenche com suas idiossincrasias. Ele não é Resnais ou Warhol, assistiu a guerra na TV (e ainda assistiria outras), leu quadrinhos, comeu junkie food, e se pretende a um cinema narrativo sim, mas já não pode negar existência de 90 anos de cinema – esse que tenta sobreviver entre uma tela negra e outra. 

Francisco Orlandi Neto

¹http://www.zetafilmes.com.br/interview/jimjarmusch.asp?pag=jimjarmusch

Sugestão de leitura:

http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/03/jarmusch.html#b12
http://www.contracampo.com.br/50/jarmusch.html
http://www.geocities.com/ruygardnier/bergaladecertamaneira.doc

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