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Fogo Contra Fogo

É notável que, ao levantar o nome de Michael Mann, o que vem em mente são filmes de ação, policiais e bandidos, tiros e intrigas. Filmes como Ruas de Violência, Dragão Vermelho (1986) e os mais recentes Colateral e Miami Vice atestam esse estereótipo. Contudo, se há um fator comum dentro da filmografia de Mann, ela não se restringe à classificação de gêneros. É perceptível um tom comum na composição dos personagens, da cidade e, principalmente, numa valorização da imagem como criadora de significados.

Numa suposta genealogia dos gêneros, os filmes de Michael Mann derivam diretamente dos westerns. O palco do duelo entre o mocinho e o bandido não é mais o oeste americano em desenvolvimento, o deserto transformou-se em metrópole, os cavalos em carros. A bela paisagem agora é feita de concreto e de milhões de pontos luminosos. Filme sobre crime, Fogo Contra Fogo apresenta similaridades também com filmes de gangsters e noir, abordando um lado negro da sociedade, mostrando a atividade criminal em relação simbiótica com a ação policial.

Em meio a isso, Fogo Contra Fogo permanece contemporâneo, tanto em seu tema quanto em sua abordagem. Propõe uma identificação tanto com os policiais quanto com os criminosos, que, vistos paralelamente, não encaixam-se na dicotomia entre bem e mal. O expediente dos policiais liderados por Vincent Hanna é similar ao da gangue de Neil McCauley, ambas equipes extremamente competentes em sua linha de trabalho, uma precisando acompanhar a outra constantemente. Isso faz de seus lideres workaholics, amantes da sua função devido ao prazer que esta proporciona, sempre dispostos a largarem tudo quando for preciso. Esse é o mote do filme, a maldição que fará perecer todas as relações familiares daqueles que tentam ser o melhor no que fazem. Pois o filme insiste na questão do trabalho, que é elemento crucial tanto na construção dos protagonistas quanto dos coadjuvantes.

Os personagens não se limitam, portanto, ao estereótipo do homem que deve fazer o que ele tem que fazer. As suas atividades, em ambos os lados da lei, são a única coisa que esses homens querem fazer, mesmo sabendo que as suas vidas pessoais irão pagar por isso. Há bastante tempo no filme para que os personagens sejam bem delineados, suas preocupações e motivações embasadas. Essa preocupação, bem como a verossimilhança das cenas de ação pouco fantásticas, deixa pouco espaço para o questionamento incisivo de um cinema mainstream, hollywoodiano, de convenções. Antes de tudo, Michael Mann parece acreditar nesse tipo de cinema, na sua eficiência inquestionável.

Para contar as histórias que lhe são caras, sobre homens que, avessos à vida comum, vivem no limite da metrópole, Mann explora os potênciais estéticos da imagem cinematográfica. Não limitando-se às formas narrativas, à montagem subordinada ao raccord, busca uma significação maior através do espaço. Ambientes com arquitetura moderna, amplas janelas que dão para um calmo oceano, o mar de luzes da cidade. È até mesmo possível, ao observar a filmografia de Michael Mann, encontrar uma correspondência entre a sua paleta de cores e o clima que o diretor deseja imprimir, seja o azul calmo, do refúgio, salvo de qualquer perigo, seja o verde estranho, de suspensão, da iminência do choque, ação inevitável.

A trama de Fogo Contra Fogo se configura como um jazz visual, com alguns temas onde os elementos improvisam, devem se adaptar para a nova situação, enquanto buscam antecipar o movimento do outro. Dessa forma a ação reconfigura o porto seguro do gênero atual, utilizando-o de forma autoral.

Thiago Santana

Sugestão de Leitura:

http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/02/mann.html
http://www.ejumpcut.org/archive/onlinessays/JC43folder/Heat.html
http://www.tashian.com/carl/docs/film_paper_1.html

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