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Irma Vep

Assayas é um diretor que passou pela revista Cahiers du Cinema, na década de 80, e algo de seu cinema partilha com as idéias dos cineastas da Nouvelle Vague, também críticos da revista. Entre alguns aspectos, o pensar e o fazer cinema como parte de um mesmo processo, a logística de produção de corte de custos e de uma equipe reduzida, e até mesmo a narrativa intimista de momentos do cotidiano aparentemente insignificantes.

Em Irma Vep, a câmera na mão trabalha num ritmo energético, no qual compõe a cena investigando o espaço, onde esses pequenos momentos parecem menos encadear um enredo do que criar uma atmosfera, nesse caso, o clima caótico das filmagens do remake de Les Vampires (um dos primeiros filmes francês a ser fenômeno de público, dirigido por Louis Feuillade em 1915). Na primeira seqüência a câmera passeia pela produtora de filmes, onde pessoas gritam ao telefone ou fazem testes de atores, e é assim, com uma aparência de casualidade que Maggie Cheung aparece no filme, uma atriz chinesa que não fala francês e se comunica com o inglês carregado dos franceses. Muitas vezes Maggie está claramente perdida entre os diálogos calorosos, e alguém lhe dirige algumas palavras com sorriso em meio à confusão.

Ninguém sabe porque o diretor, René Vidal (Jean Pierre-Léaud, ator criado na Nouvelle Vague), escolheu a atriz chinesa para interpretar o papel principal, assim como ninguém da equipe acredita no filme, e depois da primeira projeção das primeiras imagens o diretor tem um colapso nervoso, já não coloca fé na produção e nem na atuação de Maggie. “São imagens a partir de imagens. Não vale nada” Vidal diz depois do surto. O filme de Assayas mostra uma busca à imagem anterior e nostálgica do cinema de um diretor já velho e com uma filmografia recente posta em cheque. Depois do esgotamento da imagem oriundo do cinema moderno nos anos 80 foi preciso criar novos caminhos a se seguir, Vidal parece compreender que essa busca é sem sentido.

Em Demonlover (2002) Assayas parece de alguma forma desenvolver certos aspectos de Irma Vep, o caos de signos visuais contemporâneo, esse verdadeiro bombardeio de imagens sem sentido, e também exaltar ainda mais sua experência moderna vinda da Ásia. Uma das cenas mais importantes de Irma Vep é quando Maggie volta para o hotel, a música alta do Sonic Youth, a câmera agitada que percorre diversos produtos, revista de modas, tênis, encarte de cd, e a própria Maggie meio sufocada e entediada. Seguimos, então, uma cena em que a atriz incorpora a personagem Irma Vep dentro do hotel, entra em outro quarto rouba uma jóia, percorre o caminho até o terraço, onde chove, e se desfaz da jóia. Essa seqüência resume uma resposta à René Vidal, nessa confusão de personagens – Maggie Cheung interpretando Maggie Cheung interpretando Irma Vep – é compreensível a escolha pela atriz chinesa, pelo diretor de dentro e fora do filme, ela atua de forma parecida à personagem do filme de 1915 na busca pelo seu próprio alívio. Olivier Assayas que foi convidado a refilmar Les Vampires, mas largou o projeto, encontra em Irma Vep uma maneira de fundir a imagem do velho cinema ao novo e contemporâneo.

Bruno de Alencastro Grandi

Sugestão de Leitura

http://www.contracampo.com.br/73/assayasgeral.htm
http://www.contracampo.com.br/73/irmavep.htm
http://www.reverseshot.com/legacy/septoct03/maggie.html
http://www.contracampo.com.br/50/assayas.htm

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