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Depois de alguns anos trabalhando dentro do mainstream cinematográfico americano, onde realizou filmes como Gênio Indomável e o remake de Psicose, Gus Van Sant – ícone do cinema independente americano do final dos anos 80/início dos 90 – reinventa seu cinema com Gerry em 2002, que juntamente com Elefante e Last Days compoem uma trilogia (Death Trilogy) que se não evidentemente ligadas tematicamente, aproximam-se pelo dispositivo, pelo modo como se filma o objeto escolhido. Na verdade, existe algo em comum que vai além do estilo, da mise en scène dos filmes, que é um certo isolamento, representado de alguma forma nos três filmes. Isolamento esse que modifica a relação espaço-temporal desses filmes.

Utilizando-se de uma estética que usa mais do lirismo do que de uma dramaturgia mais amarrada, de uma sugestão de ações do que propriamente uma fixidez delas como nos dois filmes anteriores a Last Days, aqui, a diferença reside em tudo parecer mais solto, mas livre, menos certo. Se a câmera acompanha os personagens, e quando não, encontra-se geralmente fixa, delimitando o espaço e a configuração dos personagens nele, é para em seguida afastar-se, perdê-los dentro do filme. De poucos diálogos, esta câmera quase contemplativa, acompanha os últimos momentos de Blake, músico perturbardo, apresentando seus traços finais de humanidade, isolado em sua mansão. Inspirado em Kurt Cobain, usa do ícone para radiografar o isolamento mental e as especificidades que isso toma dentro da linguagem fílmica.

Temos então um resto de personagem, de dramaturgia, de diálogos sussurrados, inaudíveis. Um filme de misè-en-cene quase bressoniana, em que a contemplação pura do cinema, de imagem e som, de luz, reverte-se em uma contemplação temporal, do fluxo do tempo, do peso dele. Não a temporalidade griffithiana, clássica, da noção de tempo através de um noção de espaço, mas sim por um sentido muito mais efêmero, sensível, quase intraduzível. Ele aqui é passado, presente, e futuro dado o destino já preconizável pela iconicidade do personagem central, e é sentido atráves da repetições de ações, das músicas, tocadas ou não pelo personagem, da câmera que passeia e geografa o espaço da mansão através do posicionamento dos personagens.

Com Last Days, Gus Van Sant aponta um outro caminho para o cinema contemporâneo. Se a capacidade de imersão e hipnotismo era elevado ao zênite com cineastas como Hou Hsiao-hsien e Apichatpong Weerasethakul, e reconfigurações espaciais, como em Pedro Costa, é o que mais salta aos olhos, aqui, a atenção volta-se para aquilo que no cinema existe como mais intangível e indizível: o tempo e o fluxo de temporalidade, que parece ser a questão primordial para um outro olhar sobre ele. E nesse cinema, como nos outros acima, a capacidade de entrega e imersão e a vontade de não se ater a modos convecionais de representação, seja de quais e em quais níveis dela, nos entrega um novo tipo de experiência. Muito menos afirmativa e possível de argumentação e defesa. O cinema aqui existe por ele mesmo, errado, destoante e irregular, assim como a vida. 

Felipe M. Moraes

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