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Mal dos Trópicos

Alguns soldados encontraram o corpo de um morto, eles continuam caminhando pelo limite da floresta, flertam com a mulher que responde pelo rádio. Após a travessia desses soldados que se perdem na mata alta, a câmera começa um pequeno traveling adentrando entre pequenos galhos para a floresta, enquanto isso, o áudio é substituído por uma música pop tailandesa. No plano seguinte ainda estamos nesse mesmo local, o limite da floresta, onde agora um homem nu percorre o plano ao som da mesma música. Traçando um pequeno paralelo entre essa pequena seqüência e o resto do filme, Mal dos Trópicos nos chama para estar bem perto de um mistério, e tamanha proximidade, nesse filme, acarreta em se tornar muito íntimo dele.

Há uma sensação de estranhamento causada em Mal dos Trópicos, planos que aparentam pouca relação com o resto do filme e até de uma história a ser contada, não apenas pelo desencadeamento na montagem, mas pela própria composição de cada imagem e a sua significação no filme. Aliás, sensações são o que não faltam nesse filme. A mise-en-scéne de Joe Apichatpong propicia ao espectador a imersão para dentro do filme, através de imagens hipnóticas e um design de som milimetricamente construído. Ao evocar o cinema de Apichatpong muito se fala na sensação de feel-good provocada por seus filmes, em entrevista o diretor declara “Eu tento que meu trabalho reflita a forma como eu vivo e sinto a vida, ou seja: a forma de meu prazer se relacionar com as imagens”. Esse prazer é estendido a quem assiste ao filme, a tela da sala de cinema, onde a imagem é projetada, se torna o lugar onde se pode sentir a vida, lugar possível da experiência sensorial da imagem e do som.

Então, dentro da sala de cinema somos convidados pelo diretor a participar da experiência, nas cenas da floresta na segunda parte do filme estamos junto ao soldado, andamos pela selva a procura do espírito do xamã, envolvidos intimamente no mesmo mistério. A impressão que fica é que não sabemos o que está acontecendo. O fio narrativo é bastante frágil e não se compõe em uma progressão para o final; talvez, assistindo ao filme nós estejamos tateando esse fio em cada plano, não numa narrativa em forma de um tecido encadeando uma história, mas quem sabe uma teia, na qual o sentido múltiplo de cada imagem construa uma forma abstrata.

O filme é dividido em duas partes, na primeira o romance entre dois homens se estabelece em blocos de cenas elípticas, passeio pela gruta, ida ao cinema, ao shopping; até chegar o momento que Keng deve voltar ao serviço militar, separando-se de Tong. Somos logo introduzidos a uma reestruturação do filme para um conto de terror folclórico tailandês, os mesmos atores intrepretaram agora um soldado (Keng) e um xamã (Tong). Um embate entre duas criaturas travado dentro da floresta, mais que inimigos os dois seres, soldado e tigre, são também amantes.

Um dos nomes na lista de agradecimento nos créditos do filme é Brian Eno, pai da música de ambiente, criador de atmosferas através do som. Quando perguntado sobre comunicação o músico afirma que a linguagem é o segundo degrau da escada em que o processo consiste. “Me habituei a experimentar pontos de vista e universos diferentes dos meus e aprendi a sair para fora dele e procurar a empatia com eles. Só depois a linguagem procura um meio de exprimir esse exercício de empatia com aquilo que é diferente de mim”, diz Eno. O filme de Apichatpong parece se situar nesse lugar de empatia, ou como Luiz Carlos Oliveira Jr colocou em seu artigo Hey Joe,  “Apichatpong filma o mundo no momento que antecede a separação e a organização diferencial de seus objetos”. Não existe aqui destaque do espaço em detrimento de quem o habita, arrisco também dizer que a distinção imagem da tela e espectador também se diluiu. Observar se torna peça chave, em Mal dos Trópicos, os personagens trocam olhares, não somente entre si, mas também com o público.

Bruno de Alencastro Grandi

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