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Os Idiotas

Os Idiotas (Idioterne/Dogme #2) começa com Karen em um restaurante. Em determinado momento, próximo à sua mesa, um homem com aparentes problemas mentais começa a ter uma crise. Ele é, de forma educada, expulso do restaurante, mas leva consigo Karen, de quem não solta a mão, mesmo dentro do táxi, de volta pra casa. A partir daí acompanharemos e descobriremos juntamente com ela essas pessoas que fingem serem idiotas, deficientes mentais. Tem-se então um filme de uma resistência incômoda. Resistência por parte do grupo que habita a casa de Stoffer (espécie de criador e líder deles), em uma pequena cidade da Dinamarca, e incômodo por nossa parte, dos que os assistem. 

O mais importante do filme de Von Trier é justamente a sensação, esse incômodo, o desconforto das situações em que a idiotia encenada conflitua com a ordem vigente social, tanto pelo preconceito velado desta, como pelo anarquismo instaurado por aquela. Existe uma mistura de libertação e vontade de mudança por parte desse grupo de pessoas que é partilhada pela estética do filme dentro do foi o movimento Dogma 95.  

O manifesto Dogma 95 surge quando o cinema completara 100 anos (1995), na Dinamarca, criado e assinado por Thomas Vinterberg e Lars Von Trier. Composto por dez mandamentos, como proibir o uso de cenas em estúdios, uso de quaisquer recursos e ações artificiais em cena, como iluminação e filtros, até encenações de acontecimentos artificiais (como assassinatos), além de exigir uso de câmera na mão e a proibição tanto da utilização de gêneros cinematográficos como do creditamento do nome do diretor no filme, ele retoma algumas características de cinematografias modernas e estilos documentais, só que de maneira impositiva. Longe de apresentar qualquer novidade estética, o Dogma é importante no final da década de 90, pois numa amálgama entre golpe de marketing – os próprios realizadores quebram e não levam tão a sério as regras que eles mesmos criaram – e projeto estético anti-cinema vigente (leia-se hollywoodiano), ele traz à tona tanto questões de modos de produção e representação quanto uma quase legitimação do vídeo como cinema. 

E é isso que é Os Idiotas. Uma “nova” estética proposta, imposta para um objetivo distinto. Uma quebra com a representação burguesa não poderia vir dentro de uma formatação clássica, uma dramaturgia clássica. A encenação existe sim, mas fica mais evidente dentro do universo narrativo do filme, parte dos próprios personagens, e é a partir deles que ela é suportada, e mesmo assim é uma encenação torta, grotesca. Por isso então de uma imagem criada através de uma cruza de artifícios, da crueza e feiúra da imagem do vídeo. Ele é o filme Dogma 95 por excelência, pois se o movimento dinamarquês parte da ironia do estabelecimento de regras para questionar as códigos do cinema hegemônico, em Os Idiotas o grupo de Stoffer parte de um ideal utópico, de novos modos de interagir com o mundo para questionar e enfrentar um modo de vida hipócrita, mesmo que carregado de pessimismo em sua conclusão. 

Um filme de idiotas, sobre idiotas, para idiotas, afinal. 

Felipe M. Moraes

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