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Um Tiro na Noite

A reconstrução do incidente em torno do qual Um Tiro na Noite gravita, primeiro na memória de Jack Terry (John Travolta), depois ao sincronizar som e imagens gravados, expõe uma vontade de construção, guiada por uma busca. Seja a procura por rendenção, remissão dos pecados, justiça ou a singela tranquilidade, os seus personagens encontram-se em um mundo que foge das suas capacidades e explora as suas limitações.  Num mundo construido em prol desse jogo, não existem apenas lugares, ações e personagens, mas há também uma relação precisa desses elementos com a câmera.

A exatidão quase matemática de seus filmes é evidente em seus longos e elaborados planos sequências, em suas tramas de suspense, em seus detalhes, quase imperceptiveis, de um mundo detalhado. Detratores dirão que De Palma é um mero imitador de Hitchcock. Seu Vestida para Matar  é uma grande reformulação de Psicose, enquanto Dublê de Corpo une Janela Indiscreta, Disque M para Matar e Um Corpo que cai. De Palma parece ser fascinado por esse último, utilizando frequentemente personagens que possuem duplos, mudam a cor do cabelo e possuem alguma impotência relacionada ao passado. A referência torna-se obvia em Um Tiro na Noite, que inclui uma determinada cena no chuveiro nos seus primeiros 10 minutos. Contudo, essa faceta hitchcockiana de De Palma é levada ao limite do sangue, do sexo, beirando a obsessão.

Mais que um imitador, De Palma é um conhecedor de cinema.  Parte de uma geração cinéfila (seus primeiros filmes datam do final da década de 60),  encontra nos anos 80 o peso de um estigma, o fardo de todo um passado cinematográfico de grande relevância. Simplifico esse passado em termos de clássico e moderno. Um cuja existência é questionável, outro que parece esgotado. Há, em Um tiro na Noite uma vontade de conjugar esses dois tempos. Se temos Hitchcock, temos também Antonioni. Aspectos da trama assemelham-se muito aos que desencadeiam a crise existencial de Thomas em Blow Up. Tanto Thomas quanto Jack deparam-se com algo que foge a sua percepção normal, mas que a reprodução mecânica expõe. Um fotografa, ao acaso, um assassinato, outro capta o audio de um acidente de carro que talvez tenha sido provocado. O filme transita entre o comentário político do momento (ecos do assassinato de Kennedy, do caso Watergate) e a deflagração de um olhar construído.

A trama política, que envolve o personagem de John Travolta numa conspiração para assassinar um candidato à presidência apenas faz eco a um discurso muito mais relevante. Em um nível nos deparamos com os poderes manipulando a realidade para a construção de uma versão oficial, em outro o técnico de som que capta elementos do real para criar uma expressão artística. Usando  desse pretexto, De Palma brinca de guiar o nosso olhar: mostra onde a atenção do microfone de Jack está, exibe uma figura furtiva num plano aberto, afirma a impotência através de uma câmera lenta. Ou então nos dá o privilégio da escolha, ao dividir a tela (procedimento comum do diretor) e mostrar dois momentos simultaneos.

O domínio da linguagem cinematográfica é crucial para as questões que Brian De Palma propõe. Seu ápice ocorre quando Jack descobre que suas gravações foram todas apagadas e a câmera acusa a sua pertubação através de um movimento circular ininterrupto. Perturbação inerente ao seu trajeto, que parte do cinema para alcançar a obsessão. Seja na obsessão diegética em não cometer o mesmo erro ou na obsessão do diretor em retrabalhar constantemente os seus ícones, a repetição é inevitável. Como na sequência inicial do filme, uma pantomima cômica do seu restante, se é para recontar, De Palma irá fazê-lo com o mínimo de bom humor.

Thiago Santana

Sugestão de Leitura:

http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/03/de_palma.html
http://www.geocities.com/carstenlangjensen/icecream.html
http://cantodoinacio.blogspot.com/2007/08/de-palmalynch-incio-araujo-trecho-de-um.html

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