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Videodrome

"Long live the new flesh". Frase emblema – ao mesmo tempo positivismo, ironia e pessimismo – condensa de modo bem elaborado a postura do filme frente à história de alucinação com ares de pesadelo tecnológico que decide contar. Frase como slogan do novo ser humano, concebido e disseminado pelo poder da televisão; como ruína evidente da resistência frente à manipulação que agora deixa de ser ideológica para se tornar física. Quando Max Renn profere tais palavras temos consciência de que ele adentra em um outro estado de existência, que sua transformação em “nova carne” foi efetivada de tal maneira que um retorno já não se mostra possível – sua sobrevivência (se ela existir) se dará estritamente em um estado midiático. Como a personagem de Brian O’Blivion em determinado ponto anuncia, “televisão é realidade, e a realidade é menos que a televisão”.

O trunfo do filme é nos deixar ser engolidos pela visão do protagonista, nossa percepção alterada a ponto de não se poder determinar onde termina a sua (nossa?) realidade e começa a alucinação. Nos identificamos com Max, desde sua vontade por algo “mais forte” – pornografia/violência -, seu fascínio ao conseguir posicionar seus anseios em um programa televisivo, a íntima relação entre dor e prazer (Crash?) na sedutora figura de Nikki Brand. A partir desse ponto uma sensação de incômodo é derivada no espectador quando essa identificação caminha junto à obsessão, os desejos do protagonista o fazendo sucumbir em uma intrincada trama de reviravoltas e poder. O olhar objetivo aos poucos se funde ao da primeira pessoa em uma subjetividade agonizantemente criativa, que pode se manifestar na humanização (como não poderia deixar de ser) do aparelho televisivo ou na criação de novos orifícios corporais – inventividade que seria retomada em Naked Lunch, com suas máquinas de escrever mugwump-beatnik expelidoras de suco.

Dentro da filmografia de Cronenberg Videodrome não é exceção. Aqui ele nada faz além de transportar seu já consolidado ideário cinematográfico para um olhar sobre a televisiva década de 80: a transmutação tecnológica, a evolução regressiva do caráter humano frente às inovações científicas, o retrato psicologicamente denso de personagens em seus vícios e obsessões, a sexualidade humana em sua complexidade. De ExistenZ à Rabid (e sua “genial” tradução como Enraivecida na fúria do sexo), passando pela Mosca e Scanners (que mais se assemelham cronologica e conceitualmente à Videodrome), Cronenberg se revela um cineasta cujo ponto máximo consiste na constante humanidade de seus personagens, mesmo que (ou principalmente porque) eles se transformam em alguma outra coisa.

Videodrome enquanto um programa televisivo, que na espécie de lógica irracional em que o filme maior se insere carrega o poder de alterar a pessoa que o assiste (alteração que, como era de se esperar, não se restringe ao metafórico); manipulação social com toques de seita religiosa. Videodrome enquanto filme, que faz questão de se embaralhar à sua criação homônima (como o título se apresentar de forma idêntica ao de videodrome-video) e suscitar pontos de convergência. Videodrome como a síndrome do video (e nesse caso a tradução está do meu lado) – a televisão apocalíptica como pretexto para um mergulho na psicologia humana.  

Carla Alice Apolinário Italiano

Sugestão de Leitura:

http://www.davidcronenberg.de
http://www.geocities.com/contracampo/videodrome.html

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