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A Queda da Casa de Usher

Entre a dissociação entre narrativa e objeto do cinema puro, e um cinema naturalista/narrativo encontra-se o impressionismo dentro das vanguardas cinematográficas. Para o cineasta e teórico francês Jean Epstein (1897-1953), a grande invenção do cinema é o primeiro plano. Isso porque ele é o lugar da destituição espacial, e da proximidade revelatória do objeto filmado. Assim, segundo ele, “O primeiro plano fere também de outro modo a ordem familiar das aparências. A imagem de um olho, de uma boca, que ocupa toda a tela – não só porque aumentada em trezentas vezes, mas também porque vista de fora da comunidade orgânica – assume um caráter de autonomia animal. Este olho, estes dedos, estes lábios, já são seres que possuem, cada um, suas próprias fronteiras, seus movimentos, sua vida, sua finalidade própria”. O filme dispõe-se então como proposta de exaltação da plasticidade de cada objeto, e não como desdobramento dramático e narrativo de um cinema naturalista, pois o cinema é a reeducação pelo absurdo, partindo do pressuposto que toda a continuidade narrativa no cinema é resultado de uma convenção e de uma síntese de nossa consciência. Esses termos são a base para a sua teoria da fotogenia aplicada ao cinema, que trabalha a rapidez, a quebra temporal do movimento, sensualidade e principalmente a efemeridade da imagem, indo de encontro ao conceito eternizante e durável de arte e de imagem.

É natural que Epstein então vá buscar em uma literatura em que a criação do universo sensorial do narrador é a principal característica, como a de Edgar Allan Poe, material para sua obra. Apesar do conto/título ser o eixo de onde saem personagens e situações, outros contos de Poe servem de referência para a construção de Epstein, desde alusões imagéticas (O poço e o pêndulo, O gato preto), até inclusões que determinam o discurso perante o objeto, que é claramente o caso da adição da essência do conto O retrato oval à narrativa de A queda da casa de Usher. E nesses dois contos, as razões adaptativas concernem mais às lógicas discursivas e substanciais do que às dramatúrgicas e narrativas. Porque considerando o que Epstein entende por cinema e aplicando sua lógica da fotogenia, são nesses contos que ele encontrará lugar para um manifesto. Mas são questões que uma vez explicitadas na narrativa de Poe, transformam-se em aspectos da mise-en-scène fílmica. Se em O retrato oval existe a arte como elemento eternizante/aprisionante, no conto/título, duas coisas entram em consonância com o ideal epsteiniano, Roderick Usher, que sofre de uma doença que eleva extraordinariamente sua sensibilidade sensorial, e uma teoria do mesmo que afirma que todos os objetos; vegetais e coisas inorgânicas; apresentam uma forma de consciência. Isso não é senão a teoria da fotogenia se manifestando em um personagem. E aqui existe o ponto de ruptura mais importante entre o conto e o filme, que é a redeterminação do papel do narrador. O amigo que visita Usher, de narrador em primeira pessoa do conto, passa a personagem no filme.

Esse deslocamento consciente permite trazer então a ordem narrativa para diversos pontos de vista, mas principalmente para o de Roderick, que reflete em uma narrativa da extrema sensibilidade, de seu personagem, para as imagens fílmicas. Sua insanidade ao poucos domina a narrativa, com imagens da natureza entrecortando os planos, a dilatação temporal ou especificidade temporal de cada personagem, as imagens simbólicas. Tudo isso reflete na montagem do filme, equilibrando aspectos interiores e exteriores, concernentes a narrativa e entre o espaço natural externo transfigurado, resignificado, e de como Epstein pensa os planos, sempre no movimento cônscio de aproximação em primeiro plano descontextualizado, para o espaço aberto, definido, ciente da fragmentação natural do cinema. O discurso de Epstein enfim, mistura-se a visão do personagem, todo seu espectro de cinema poético passa pela percepção alterada de Usher, como se a necessidade de um novo olhar passasse antes de tudo por um novo modelo de sensibilidade. 

Felipe Moraes

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