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Encouraçado Potemkin

Eisenstein já vinha desde 1920 atuando como desenhista do teatro construtivista do Proletkult, órgão independente de cultura, surgido logo após a revolução bolchevique. É ali, alimentando diversas questões concernentes à forma do espetáculo, que em 1923, durante a montagem de O Sábio, de Ostrovsky, Eisenstein irá pôr em prática os seus conceitos acerca da “montagem de atrações”, seguido da publicação do célebre manifesto de mesmo nome, que se tornou o marco inicial da sua empresa teórica e postulou uma nova metodologia para o teatro. No texto, o cineasta reivindicava a construção da peça em pequenas “atrações” (esquetes, entreatos, etc.), aparentemente independentes, rigorosamente concebidas para causar ao espectador um efeito sensorial e psicológico atribulado que, ao serem montadas, faz o todo ensejar a elucidação de um sentido de cunho densamente ideológico, afinado às proposições do Partido Comunista Soviético. Em seguida, seu interesse crescente pelo cinema leva-o, já em 1924, a realizar A Greve, bastante fixado em suas teorias. Um filme intermediário em sua obra, concordava o cineasta, pois ainda continha um nível de teatralidade oriundo de sua experiência anterior muito descabido, que não surtia o mesmo efeito do teatro, o que o levou à reforma de seu método, agora adaptado ao cinema.

 É neste ínterim que Eisenstein percebe que a plataforma mecânica é a ideal para a sua “montagem de atrações”, pois conserva a sua potencialidade no plano e na montagem, agentes que possibilitam a inscrição do conflito. Portanto, a “atração” no cinema reside agora no conflito entre planos, um movimento dialético, que visa – como antes – o estímulo do choque no espectador. Noutra perspectiva, se a velha “atração” era configurada na mise-en-scène teatral, a nova se fundamenta na montagem de partes de filme, sempre buscando uma relação contraditória, metafórica, com associações à primeira vista absurdas; sintomas da renúncia ao cinema narrativo-realista, que se funda na literatura e no teatro burgueses, em formas que, para Eisenstein, desperdiçam o vasto potencial do cinema. Por conseguinte, O Encouraçado Potemkin vem a ser o representante pleno desta nova acepção.

 Em Potemkin, os exemplos das “atrações” tomam diversas variações, seja no momento da rebelião dos marinheiros, em que o close-up da fisionomia irada do oficial superior é justaposto abruptamente ao close-up de um clérigo com aspecto doentio, o que naquele contexto identificará o opressor dentro de uma tradição de repugnante arbitrariedade católica; ou ainda a crueldade de outro oficial, explícita na “atração” encerrada na seqüência em que ele verifica, com uma lupa, se o pedaço de carne destinado à refeição dos marinheiros esta mesmo podre: conclui que não, mesmo com a evidência da contaminação por larvas de mosca, mostrada em reiterado plano que atinge o desconcerto do espectador e a absoluta dinamização da retórica da seqüência.

 Ademais, Potemkin ainda carrega muito do legado construtivista russo, que muito embora já viesse dando sinais de enfraquecimento desde 1924, com a morte de Lênin e o conseqüente advento embrionário da ditadura stalinista, ainda era mote do discurso da estética oficial. Portanto, ainda que seja dado recorrente na empreitada vanguardista da época, o espectro da máquina neste filme tem a sua função mais intensa: no último bloco, no qual o encouraçado – já em poder dos rebeldes – vai à direção do barco do exército para bombardeá-lo, justaposições desordenadas de planos de alavancas sendo acionadas, indicadores de pressão no máximo, chaminés lançando fumaça por todo o convés e interruptores sendo ligados estão ali não só para nos lembrar de que natureza da Revolução é de caráter sobretudo libertário, mas que também, como dissera Lênin, a conquista deve ter o teor modernizador, nem que para isso deva se valer do que foi iniciado pelos “carrascos” industriais.

Enfim, é coroando o processo com muita ênfase e rigor, que Eisenstein, ao compor e montar os planos finais da aproximação dos barcos e da conseqüente pacificação entre eles, irá escurecer todo o ar dos conveses com densas nuvens de vapor dos motores. Os tripulantes, lançando suas boinas ao mar, agora podem inalar, felizes, o perfume da modernidade. A câmera eisensteiniana, devidamente “esmagada” pelo casco da embarcação, já pode descansar no mar, após cumprir mais uma função. 

Marcos Blasius Pavei

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