Próximas exibições

Receba a programação por e-mail

Calendário de Exibições

março 2007
seg ter qua qui sex sáb dom
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031 

Pesquisar

Textos das sessões passadas

Entreato
Um Cão Andaluz

Entreato (Entr’acte), de René Clair, 1924.

     "Relâche não tem significado… Quando perderemos o hábito de explicar tudo?”, retrucava Francis Picabia ao ser questionado sobre o que seu escandaloso balé tratava.

     Na noite de estréia do primeiro balé dadaísta, o bailarino Jean Börlin adoeceu e foi colocada uma placa em frente ao teatro em que a apresentação ocorreria com o dizer “Relâche”, termo cuja tradução seria “não há encenação esta noite”. Para muitos, esta seria só mais uma das picardias dadaístas. O que o público se deparou, então, nas sessões seguintes, foi uma obra que rompia completamente com o balé clássico.

 No intervalo do primeiro para o segundo ato foi projetado o filme de René Clair, encomendado por Picabia, convenientemente chamado de Entreato.

      René Clair, assim como o movimento Dadaísta, viu no cinema um oportuno caminho para estilhaçar a narrativa, ridicularizando o personagem, a direção e a trama chamando esses elementos de convenções burguesas. Com imagens sucedendo-se em uma relação não causal e sem nenhuma lógica, o filme mostra desde ângulos inusitados de uma bailarina barbuda e ritmos frenéticos de um funeral até balões infláveis soltos no ar e imagens de Man Ray e Marcel Duchamp jogando xadrez, com panorâmicas tão rápidas que se reduziam à manchas disformes na tela. Planos agressivos e propositalmente desprazerosos caracterizam esta comédia de perseguição de um artista que, no final, faz desaparecer todas as personagens, inclusive ele próprio. As imagens são cativantes e perturbadoras; dão vida a objetos inanimados e sobriedade a uma marcha fúnebre.

      Mesmo sendo lançado quase concomitantemente a publicação do primeiro manifesto surrealista, este filme não possui características suficientes para que já o enquadrem como uma obra de tal movimento. O prenúncio do que seria o surrealismo está ali, no entanto o clima criado e a forma de denúncia são claramente Dadaístas. Lembro que o Dadaísmo foi um movimento que prezava o ilógico e o absurdo. Sim, isso lembra a abordagem surrealista de Breton, Dali e Buñuel. Porém, o objetivo dos dadás não era a arte pura e espontânea, livre de pré-conceitos. Era uma arte que queria o escândalo, o deboche e a denúncia de uma sociedade burguesa perdida em suas próprias convicções.

     Eis que Entreato irrompe o balé e atira na platéia. E some da cena ao final.  

Um Cão Andaluz (Um Chien Andalou), de Luis Buñuel, 1929. 

     Freud afirma que os sonhos são sistemas de símbolos acumulados e que, por esta propriedade, devem ser interpretados de maneira lógica. Inspirado por estes novos conceitos, em meados dos anos 20, André Breton se desgarra de seus parceiros dadaístas e propõe aos artistas e escritores, ao publicar seu primeiro manifesto do surrealismo, que expressassem o pensamento de maneira livre, espontânea e irracional, externando os impulsos da vida interior, sem exercer sobre ele qualquer controle, inclusive de ordem estética ou moral. O surrealismo, então, se caracteriza por um paradoxo ou um conflito que gera uma nova realidade, a surrealidade.

     Os surrealistas, desta forma, passaram a utilizar os sonhos, as fantasias e todo material advindo do subconsciente através do que chamavam de automatismo consciente para a construção de suas obras.

     Em Um Cão Andaluz, Luis Buñuel e Salvador Dali justapõem deliberadamente imagens que corriam em seus sonhos, sem qualquer lógica, violando a narrativa clássica. No filme, assim como nos sonhos, há deslocamentos de tempo e espaço. A ruptura de tempo ocorre através dos intertítulos que no lugar de auxiliar a construção narrativa, destroem-na. Já o deslocamento espacial se faz por um uso oportunista das locações. A rua e a praia ocupam o mesmo espaço fora do apartamento.

     Seria muito vago ou deveras subjetivo de minha parte buscar uma interpretação para este filme. De fato, desde seu lançamento todo o tipo de interpretação já foi feita a seu respeito; desde “seu enredo seria uma viagem à mente perturbada de um assassino e as suas confissões traduzidas em imagens” até menções anti-cléricas. No entanto, o próprio Buñuel certa vez afirmou que qualquer idéia racional, preocupação estética ou técnica seria irrelevante e descartada.  O que acontece, no entanto, é um efeito no qual o espectador busca por sentidos e lógicas, interpretações presas nos valores vigentes.

      O único objetivo aparente em Um Cão Andaluz, no final das contas, é a busca por uma expressão artística que se refere não ao modelo externo, mas sim a outro, o interno, não condicionado por modelos culturais. Para Buñuel e Dali existe outra realidade, tão real e lógica como a exterior, que é a dos sonhos, da fantasia, dos jogos espontâneos do inconsciente que se desenvolve a margem de toda a função filosófica, estética ou moral. O filme quer transcender o mundo tangível e desvelar aos espectadores um universo até então desconhecido, encoberto pela percepção cotidiana das coisas.

Carolina Gesser

Write a comment