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O Gabinete do Dr. Caligari

O expressionismo, ou aquilo classificado como, distorce a realidade na intenção de causar um efeito emocional. No cinema isso acontece através da quebra de perspectiva e do jogo de sombras. O que muitas vezes passa inaudito é a ruptura com a decupagem clássica e suas regras de continuidade e os padrões de coerência espacial. Cito a cena em que Alan, amigo do personagem principal, quando decide sair de casa, busca seu chapéu fora de cena, nos deixando por alguns segundos a observar um quarto vazio, ou quando Francis bate à porta da cabana do Dr. Caligari e a câmera pula pra dentro da mesma no ângulo oposto.

O Gabinete do Doutor Caligari é um filme expressionista por excelência, por muitos tido como o primeiro. A narrativa se passa em flashback , enquanto Francis relembra os terríveis acontecimentos decorrentes de seu encontro com o famigerado doutor. Entramos, então, num sonho maluco com cenários e personagens bizarros. O de Werner Krauss, por exemplo, nos dá a dimensão da insanidade obscura da narrativa a seguir, sua figura corcunda e o olhar perturbador parecem proferir uma ameaça constante. Aqui há algo de premonitório no uso do conhecimento de seu personagem para o mal, como se os acontecimentos do entre-guerras soprassem aos ouvidos do diretor alemão o mau augúrio de seu país.

Não posso deixar de sublinhar o desrespeito sistemático à continuidade e como isto atua na forma de expressão do filme. Wiene muitas vezes pausa a ação por um momento para nos mostrar as mãos do personagem em desespero, o olhar do sonâmbulo à garota adormecida, tudo no sentido de criar uma atmosfera de terror ou compaixão. Quando vemos uma sombra levantar-se frente à vítima, não precisamos acompanhar sua aproximação para que dois cortes depois o assassino esteja agarrando o pobre coitado – elevando a cena a seu ápice rapidamente, mesmo depois de uma suspensão. Do meio em diante, a montagem se torna rápida, com uma seqüência de ações em paralelo, a trama se complica e tudo passa tão rápido que a história parece se tornar uma espiral de acontecimentos fatídicos.

Então, terminado o gigantesco flashback , voltamos ao que eu considero um demérito do filme. A saber, Kracauer nos conta que o começo e o final foram inseridos depois de concluída a gravação, a despeito dos roteiristas. O prólogo e o epílogo efetuam uma quebra no estilo do filme, exceto pelo manicômio, cujo cenário continua o mesmo. Se a intenção era reduzir toda história às alucinações de um lunático, justificando as deformações no cenário ou qualquer outra que fosse a intenção, manter o mesmo manicômio soa como desleixo. Além disso, a parte final caminha para uma lição de moral completamente adversa ao intuito inicial dos roteiristas de «denunciar o absurdo de uma autoridade social». Destoa, parece a mão de um produtor tentando conformar o filme a uma ideologia comum, rasa.

Francisco Orlandi Neto

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