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Eu, um Negro

O que interessa para mim é a introdução do imaginário, do irreal. Usar o filme para contar aquilo que apenas pode ser contado em forma de filme." (Jean Rouch) 

    As formas artísticas trazem em si a busca do homem pela verdade. Verdade em seu sentidoamplo, não meramente correspondendo a realidade crua, uma verdade que transcende.

    “Eu, um negro” é o primeiro longa-metragem finalizado de Jean Rouch, já que “Jaguar” filmado em 1954 só ganharia forma final em 1967. Rouch liberta seu filme do simples registro etnográfico documentarial, a partir das influências do Neo-Realismo italiano e buscando as propostas de Dziga Vertov, ou até mesmo de Flaherty, cria um cinema-etnográfico que propõe o diálogo entre o observador e o observado, bem como um cinema que se constrói e se investiga ao mesmo tempo.

    Neste filme encontramos a vida posta em cena. Subvertendo a narração em off a partir do sujeito narrador, encontramos personagens reais que são mostrados em uma auto-fabulação, e se tornam outros, comentando posteriormente seu papel, transformando o filme num espelho da auto-descoberta, sem a frieza e descrição imparcial dos eventos, somos lançados no universo de imigrantes nigerianos que tentam sobreviver em Abidjan.

    O que interessa a Rouch é a tensão simbólica, antes mesmo de ser concretizado o manifesto do cinema-verité, já antecipa o valor da sinceridade do cinema com relação ao espectador. A verdade do cinema.  E sua câmera recorta a efêmera vida dos moradores de Treichville, subúrbio de Abidjan, uma vida representada que possui um valor ainda maior que aquela dita como real, pois nessa conseguimos entrar e ver os sonhos desses personagens, como no maravilhoso sonho de Edward G. Robinson em que este ganha o título mundial de boxe. Também quando em uma câmera, por vezes subjetiva, participamos numa briga com um italiano. Ou mesmo em suas lembranças sobre a terra natal, onde Rouch monta pontuando as lembranças de Níger, “neste momento não estamos longe de uma montagem ‘vertoviana’, como uma citação…”, diz Rouch.

    “Eu, um negro” foi um grande ponto de partida para o documentário moderno e os cinemas-novos. Uma nova concepção de linguagem e uma nova postura irão surgir a partir do comprometimento com a tal “verdade”, com o contexto histórico, e as novas tecnologias que permitirão câmeras mais leves com som direto. Portanto, mais homens com uma câmera poderão retratar as diferentes vertentes sociológicas que abrangem este mundo borbulhante.  

Rodrigo Ramos

Sugestão de Leitura:

TEIXEIRA, F.E. – Documentário Moderno. In: História do cinema mundial. (org.) Fernão Mascarello, 2006
MONTE-MÓR, P. – Tendências do documentário etnográfico. In: Documentário no Brasil. (org.) Teixeira, F.E.
Colleyn, J.P – Jean Rouch, 54 anos sem tripé. Entrevista publicada em CinemAction n64, 1992

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