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Gimme Shelter

Rape, murder: it’s just a shot away; it’s just a shot away!
Jagger/Richards 

Uma das questões mais discutidas a respeito do cinema é sobre a medida de voyeurismo que proporciona ao espectador. Este prazer é quase sempre identificado como caro ao cinema de ficção, que emula situações e acontecimentos da vida privada não admitindo o artifício, deixando o espectador numa posição confortável diante do filme. Neste sentido, o documentário estaria, à primeira vista, polarmente oposto, pois parte de um suposto corpo-a-corpo com a vida real, seja esta influenciada pela presença da câmera (o moderno documentário) ou mesmo captada para sua posterior reconstrução dentro de uma estratégia retórica (à época, o documentário tradicional). 

Entretanto, Gimme Shelter opera um novo ponto de partida. É “cinema direto”, a concepção moderna de documentário predominante nos Estados Unidos durante a segunda metade dos anos 1960 até os 1970. Em resumo, temos, no trato do filme com o cotidiano (filmagem), uma grande fidelidade com relação ao acaso e uma tentativa de neutralização do discurso que seja, talvez, a grande responsável pelos efeitos causados na obra (montagem). Isto é, vemos imagens sem ter a certeza da opinião de quem as fez, porque este alguém/cineasta silenciou-se por trás das câmeras, enquanto lidava com seu “conteúdo”, e deixou que a máquina fizesse tudo sozinha. Depois, durante a operação de seleção dessa realidade, perseguiu a mesma postura de antes e apenas privilegiou os momentos que, capengamente, julgou serem os mais expressivos. 

Mas, o que expressam estas imagens? Violência, amor, o virtuosismo vocal de Tina ou a inaptidão de Jagger em acalmar brigas? Sim, tudo isso. Porém falta a direção, quer dizer, que se assuma essa direção, que se aplique a voz over, a entrevista, o dialogismo entre os planos, enfim, elementos que ajudam a obra a encerrar um discurso. Sem isso, temos o caos. E o espectador, sem se dar conta desta ausência, faz todos os juízos de valor por si próprio, sendo voyeur no sentido mais pleno; afinal, não espia um jovem conversando com um Hell Angel, se desentendendo com ele para depois assistir a briga que culmina no assassinato do primeiro. Ele espia o que pode – neste caso só o final da história -, porque sua postura observadora (a mesma da câmera) estava vulnerável à sorte e apenas isto foi possível testemunhar. Não tem, então, meios plenos para julgar o que vê, de maneira que o cineasta também não pôde ter. A partir disso, a este último, perguntamos: tendo em mãos eventos clivados da realidade, o que construir? 

A escolha mais ética seria construir nada, talvez respondessem os irmãos Maysles, porque tudo o que tentassem não passaria de uma pretensa conjectura, esforço vão de controle sobre uma situação naturalmente contraditória. É claro que este risco existe também nos demais modos de documentário, mas aqui isso é reconhecido e acaba influenciando a postura do fazer. Por isso, virtualmente, a câmera não existe; tanto para as pessoas documentadas – que não fazem caso da câmera por nada – quanto para nós, espectadores, cujo contato estabelecido com o que o filme reproduz é direto. Assim, toda e qualquer possibilidade de significação ficará a cargo deste; se ele quiser, claro. 

Marcos Blasius

Sugestão de leitura: 

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Tradução Monica Saddy Martins. Campinas: Papirus, 2005.
VALENTE, Eduardo. Uma vez na vida: Gimme Shelter. In Contracampo N. 28. Disponível em <http://www.contracampo.com.br/28/gimmemaysles.htm>

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