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O Homem de Aran

No oeste da Irlanda, nas Ilhas Aran, vive uma pobre família de pescadores, que sobrevive nesta paisagem crua, a despeito das dificuldades diversas impostas pela natureza. No entanto, a família se mostra unida, no plantio, na pesca, sob tempestade.

Considerado um dos fundadores do cinema documentário, ao lado de Dziga Vertov e John Grierson, Robert Flaherty pode ser visto como um antropólogo-visual, por seu método de trabalhar o filme. Disposto a ilustrar a realidade de comunidades, como os esquimós, em Nanook, o Esquimó (1922), ou os pescadores das Ilhas Aran, neste O Homem de Aran, ele se propunha a conviver com esta realidade por um tempo e, a partir disso, decidir o que representaria melhor a comunidade e seu cotidiano.

Apesar disso, não é precisamente como um antropólogo que Flaherty se comporta, e sim como um poeta, no sentido de que interfere na realidade, tecendo as imagens pela sua vivacidade/expressividade, recriando a singularidade que enxergou. Mas essa é uma das questões discutidas acerca do cinema documentário (assim como a da objetividade e transparência neste gênero, que são contestáveis), o limite da interferência que o filme provoca no meio que se propõe a registrar.

No que diz respeito a Flaherty, a “montagem” do que se passará no filme não invalida sua importância, caso ainda represente o que pretende. Na época da filmagem de O Homem de Aran, os moradores das ilhas não praticavam mais a pesca de tubarões há 90 anos (e os esquimós de Nanook não usavam mais lanças para caçar, e sim armas de fogo); mas estas cenas foram utilizadas para a construção dessa representação. Também os membros da família de Aran foram escolhidos separadamente, não há parentesco, embora todos os atores sejam da comunidade. “Eu deveria ter sido baleado pelo que eu pedi a estas notáveis pessoas fazerem, tudo por um barril de porto e cinco pesos a cena”.

O oeste irlandês, de fato mais pobre em comparação ao leste e ao Reino Unido, aparece aqui mitificado: a família está isolada, perdida em algum ponto do mundo, falando uma língua também esquecida. E o trivial se confunde com o extraordinário frente ao espectador, que contempla as paisagens, e observa como os habitantes lidam com este meio.

“Por meio do cinema eu me esforço em dar a conhecer um país, assim como as pessoas que aí vivem. Esforço-me em torná-las as mais interessantes possíveis sob seu aspecto mais autêntico. Só me sirvo de personagens reais, de gente que vive no local filmado porque, ao final das contas são, realmente, os melhores atores. Ninguém é mais expressivo que os irlandeses, neste domínio, incontestáveis. Os negros, tão espontâneos, possuem o próprio natural, assim como os polinésios. Mas existe um germe de grandeza em todos os povos e cabe ao autor do filme descobri-lo: achar o incidente particular ou mesmo o simples movimento que o torna perceptível. Penso que os filmes dramáticos um dia serão feitos dessa maneira.”       (Robert Flaherty)

Rafael Grigoletto

Fontes:

http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/02/flaherty.html

http://www.iol.ie/~galfilm/filmwest/19aran.htm

http://www.screenonline.org.uk/film/id/480287/

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