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O Prisioneiro da Grade de Ferro

O título e a premissa do filme dessa última sessão faz retornar àquela que deve ser a questão mais recorrente do cinema documental: a representação do Outro, da experiência do Outro. O filme de Sacramento nasce a partir do resultado de oficinas de vídeo oferecidas para os presos na (hoje desativada e parcialmente demolida) casa de detenção de São Paulo – o Carandiru – durante seis meses. Iniciados nos procedimentos técnicos e narrativos do audiovisual, esses homens se dispuseram a registrar aspectos de suas vidas (por isso, o subtítulo) lá dentro. O Prisioneiro é a junção dessas imagens a outras, feitas pela equipe durante todo o processo.  

Objetos da representação viciada do telejornalismo, que os recriam enquanto resíduo social indesejável, mal a ser combatido, os detentos, por meio de seus auto-retratos, ganham não somente uma dimensão mais complexa que aquela da mídia de massa, mas também enquanto criadores de sua própria imagem, vão de objetos à sujeitos da representação. Antes de discutir a posição do preso no mundo, O Prisioneiro da Grade de Ferro quer problematizar o lugar deste (e consequentemente, o do realizador) no filme: postas as regras, tudo o que veremos deixa de ser realidade imaculada a ser captada pela câmara, para tornar-se interação entre preso e equipe, entre câmara e gente. Por esse viés nos chegam as imagens da vivência no Carandiru, estas muitas vezes captadas nos momentos em que o diretor e a equipe estavam ausentes. 

A atitude de Paulo Sacramento não é experiência isolada. Podemos pensar, também dentro da tradição do documentário brasileiro, em Jardim Nova Bahia (1971), de Aloysio Raulino (não por mera coincidência, fotógrafo d’O Prisioneiro da Grade de Ferro, bem como um dos responsáveis pelas oficinas oferecidas aos detentos), em que o diretor também entrega a câmara para seu personagem. Entretanto, se no filme de Raulino ainda existe a preocupação em preservar uma certa pureza dos registros, especificando quem filma em cada momento, no de Sacramento isto não ocorre: na montagem, as imagens dos alunos são misturadas às imagens da equipe, sem que possamos distinguir claramente quem porta a câmara, numa dupla contaminação que desautoriza qualquer relativização, tentativa de perspectiva, em ambas as direções. Só nos chegam os momentos, os fragmentos da vida na cadeia, sejam eles captados pelo diretor ou não. 

Para onde aponta essa radicalização no sentido de representar a experiência alheia? Embora sujeitos na captação de imagens, os detentos não participaram da montagem, instância organizadora determinante. Não esqueçamos de que Sacramento é autor e não se pretende invisível em seu filme. Coube ao diretor organizar o material, mas aqui a questão é a de realizar em conjunto, e o produto desse processo é a conseqüência do encontro, não um veredicto anterior à experiência alheia, e muito menos uma intenção totalitária em relação ao real. 

Fábio Menezes

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