Próximas exibições

Receba a programação por e-mail

Calendário de Exibições

dezembro 2007
seg ter qua qui sex sáb dom
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31EC

Pesquisar

Textos das sessões passadas

Os Catadores e a Catadora

Um recorte: pessoas que buscam no lixo algo que se possa aproveitar, tanto para seu sustento como por prazer ou hábito. Há um limite aqui, ou melhor: uma fronteira, entre aquilo que se considera descartável e o útil, um julgamento que sobre muitos aspectos sofre concessões conforme a mudança de pontos de vista. Esse talvez seja o mesmo dilema de se delimitar um recorte a um documentário: qual tópico é digno de representação, ou análise, qual não. Seriam os caminhões atravessando as estradas francesas impassíveis, incógnitos, dignos da atenção de um documentarista? Talvez devamos deixar esse assunto pra depois.

Varda apresenta seu assunto, de forma singela, através de uma enciclopédia. Nela encontra quadros que retratam catadoras, mulheres que para alimentar sua família esquadrinhavam as plantações após a colheita atrás dos rejeitos, daquilo que não foi aproveitado pelos fazendeiros. Ela, por sua vez, troca o fardo de trigo pela câmera digital para colher as imagens à moda de seu objeto. Desse momento, há a fusão entre a diretora e o objeto, não num sentido estrito de amálgama, mas no de que, ao retratar esses catadores, Varda retratará a si própria, ampliando seu universo temático e fazendo o que Bernadet chama de filme ensaio:

      • “Além de ter a liberdade de todos os meandros e digressões e de não se sentir adstrito a uma argumentação lógica e conclusiva, o ensaio, nesta vertente, é auto-reflexivo. Ele comenta a sua elaboração, o que Varda faz de inúmeras maneiras,[...]”

E comenta sobre como Varda retoma a própria produção do filme no seu decorrer. Adiciona-se a isso a condição da diretora, que se abre a observação material bruto para compor a linha narrativa com planos que, num primeiro momento, não concernem exatamente ao tema, mas que, dentro da proposta de se “catar” imagens, fazem todo sentido. Esses planos são da ordem do inusitado, do casual, como esquecer a câmera ligada e, ao invés de descartar esse refugo, usá-los para criar a sensação da viagem onde se constrói o filme, e, no fim, construir através das imagens a auto-reflexividade de que nos fala Bernadet.

Se não é do interesse de um documentário os caminhões incógnitos das estradas da França, ou um cão com uma luva de boxe no pescoço, é do interesse de Varda criar no espectador a sensação de que, assim como o lixo para seus catadores, é sempre possível recuperar alguma coisa do refugo, pois daqui se pode criar algo diferente daquela primeira impressão de inutilidade. É a busca por esse instante, não porque ele simplesmente se encontra inaudito, mas por encontrar na sua aparente inviabilidade uma outra possibilidade de significação.

Francisco Orlandi Neto

Write a comment