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Terra Sem Pão
Noite e Neblina

TERRA SEM PÃO , de Luis Buñuel (1932).

NOITE E NEBLINA , de Alain Resnais (1955).

“(…) Então, quem é responsável?”
Jean Cayrol, na narração de Noite e Neblina.

      Apesar da exibição conjunta hoje, há um hiato entre os dois filmes: a Segunda Guerra Mundial. Noite e Neblina é realizado vinte e três anos após Terra Sem Pão, o que gera resultados diferentes na feitura das duas obras. O que de certa forma Terra Sem Pão antecipa – a ascensão dos regimes totalitários na Europa de unificação nacional tardia – é motivo de reflexão do filme de Resnais, o saldo desse processo. 

      O filme de Buñuel carrega a influência dos filmes de expedição (entre eles Nanook do Norte, por exemplo), nos quais se buscava, mimetizando a impressão do viajante, o peculiar da terra estranha, um olhar distante sobre uma realidade a qual o narrador não pertence, apenas passa. Utilizando-se dessa lógica narrativa comum a este tipo de filme, Terra Sem Pão ironiza a condição  de miséria dos habitantes de Las Hurdes, como se estas características não fossem uma conseqüência da situação política e social da recém formada república espanhola, mas um dado da tradição local, de suas características naturais. 

      Duas décadas mais tarde Resnais visita os restos da máquina nazista, suposta solução para o quadro de miséria social alemã do período entre guerras. As ruínas abandonadas dos campos de concentração por onde agora passamos reafirmam a necessidade de recordar, de não esquecer. O presente (imagens coloridas) evocam o passado, a memória (imagens em preto e branco) do genocídio dos campos de concentração. Esse movimento de ir e vir trabalha a favor de uma impossibilidade de separação entre passado e presente, e, além disso, uma impossibilidade de representar tais acontecimentos. Noite e Neblina é fruto do medo do esquecimento. A guerra então traz uma nova dimensão para a representação documental: como mostrar o horror? 

      Para tais efeitos, os dois autores se utilizam, entre outras coisas, de novas formas de um elemento chave na prática documental no cinema: o comentário em off. No início do cinema documentário, a voz em off é o elemento organizador da experiência por excelência. É ela que nos guia pelo espaço e pelo tempo, que nos apresenta personagens e eventos, descreve suas ações e, em última instância, confere veredictos, formas de olhar para a imagem diante de nós. Ambos os filmes utilizam-se do comentário para guiar o olhar do espectador, mas ao contrário de uma suposta postura objetiva e neutra do documentário clássico, é a subjetividade que impera nos narradores. Da ironia, de certa forma contida, que surge do diálogo entre imagem e narração em Terra Sem Pão, à alta carga pessoal e poética impressa na reflexão do indefinível que representa o holocausto, o comentário livra-se de sua responsabilidade de totalizar, de reger, de ocultar e suprimir as contradições dos acontecimentos. 

      Não há mais a “voz de Deus”, mas sim a de um narrador que não esconde o teor crítico ou reflexivo de sua fala, que, ao contrário, potencializa a subjetividade para criar uma nova dimensão da experiência, articulando-se com outros elementos da construção fílmica. Essa necessidade de construção decorre de uma nova postura em relação ao que está em frente da câmara, uma condição moral que emerge do contato entre realizador e objeto. O filme documentário passa a ser invadido por uma atitude reflexiva transparente, assumida, a partir desse momento indissociável da relação entre cinema e real.  
 

Fábio Menezes e Felipe Moraes.

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