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Coração de Cristal

Os primeiros planos apresentados neste filme nos fazem, imediatamente, esquecer das lendas que perseguem o cineasta Werner Herzog e sua experiência em sets de filmagem. São coisas que vão de bravejações a tiros no set de filmagem, cruzando por megalomanias no meio da Floresta Amazônica.

Contudo, essas excentricidades do alemão geram uma certa curiosidade sobre sua pessoa e devido a esta que fomos levados a Coração de Cristal. Aguirre e Fitzcarraldo são consagrados filmes do cineasta e as lendas que citei anteriormente são ligadas a eles diretamente, já Coração de Cristal, que não vem a ser um dos mais conhecidos filmes do cineasta, possui essa mesma curiosa estigma exótica.

Pela história do filme não se vê uma corelação com o seu diferencial. Em uma vila de vidraceiros na Bavaria, falece o mestre que detinha do segredo do Vidro Rubi, o qual estabelecia a economia do local, com este problema nas mãos a comunidade começa uma busca pelo segredo sepulcrado pelo falecido, mas a falha desta a leva á desordem e à barbárie.

O experimento que Herzog utilizou neste filme foi a hipnose. Todos os atores com exceção do que interpreta Hias (o profeta) e os mestres vidraceiros, trabalharam hipnotizados nas cenas. Superficialmente, isso atribui uma demência às interpretações, logo, no prosseguimento da trama onde a vila entra em um parafuso psicológico a sensação de loucura não é atribuída pelas alterações nos caráteres das personagens, todos parecem lunáticos desde o início, mas sim com as atitudes mais radicais que eles realizam, como o desejo de ver Pauline dançante e nua em cima da mesa da taberna.

Ultrapassando os limites do filme, o uso da hipnose por Herzog pode ser interpretado como uma defesa da posição do diretor como autor. A presença do diretor neste filme é maior que a manifestação intelectual que definira os enquadramentos, a mise-en-scène e os gestos dos atores, neste último, os conceitos do diretor, a explicar, sempre diferirão da idéia do que o ator compreende por ser tal coisa, logo, nada será como pedido, apenas aproximado, em todas as instâncias.

Mas a hipnose cria uma presença física de Herzog na tela, a interferência do diretor entre o ator e o filme, a qual normalmente é ofuscada pelo desconhecimento desta figura do diretor, ecoa em todos os movimentos dos atores, inclusive nas longas pausas entre suas falas. É como se Herzog proclamasse «se há um Deus aqui, sou eu», o que, em uma visão mais exagerada, não deixa de ser verdade em tal ocasião.

Herzog, que neste filme se apresenta metafisicamente em toda sua extensão, talvez desconfiado da percepção do espectador com sua presença ali, não hesitou em aparecer fisicamente em um dos planos de seu filme. Não que Herzog jamais tenha feito um cameo anteriormente, mas este deve ter sido especial.

Phillip Gruneich

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