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Memórias do Subdesenvolvimento

Para o cinema de Tomás Gutiérrez Alea, a noção – ou a condição – de espectador é central. Transcendendo a busca por “atingir o público”, sua proposta é pensar o cinema como força de câmbio da realidade. Por isso, formula sua noção de “espectador ativo”: aquele que ao ver um filme compreende melhor o mundo em que vive, entendendo que o projetado na tela é produto de uma realidade compartilhada. O cinema deve ser pensado como agente estimulante, que propõe questionar e evidenciar as fissuras do cotidiano, da sociedade, da vida. Não por acaso, ao falar de seu ofício como diretor, ele tenta colocar-se nesse mesmo lugar. O realizador é aquele que concebe o espetáculo – e Alea não deixa de usar esse termo, evitando a ingenuidade – como resultado de uma postura espectatorial diante do real. É tarefa dele observar, recortar esse real e remontá-lo na tela, trazendo à tona uma dialética irredutível entre identificação e estranhamento, impressão de realidade e reflexividade. O filme não é o espelho objetivo da realidade, mas nem por isso resta-lhe ser somente “um filme”; ele está justamente no choque entre essas duas forças1.

Em Memórias do Subdesenvolvimento, nos deparamos com a Cuba dos primeiros anos da revolução, atordoada pela súbita e intensa reforma estrutural que busca alterar as relações de classe e de pertencimento dos cidadãos. Enquanto a maioria, antes oprimida, festeja o triunfo do socialismo, a elite burguesa deixa o país às pressas. No olho do furação, Sérgio: burguês, intelectual, bon vivant. Ele, que ao contrário da família e dos amigos, decide ficar para ver tudo de perto, enfrenta sua postura dúbia em relação à ordem social delineada pelo novo regime. Por um lado, compartilha dos ideais da revolução, e crê que ela “vem para o bem”. Por outro, lhe parece visível a ineficácia, por parte dessa mesma revolução, em sanar os “sintomas do subdesenvolvimento” da realidade cubana. Ele nunca se reconheceu em seu círculo burguês escapista, mas tampouco pode enxergar-se no povo, na massa “subdesenvolvida” que o cerca.

Mas, se a tensão entre narrador e mundo é o motivo da narrativa, esta não se limita a ser mero veículo de sua fala. Subjacente a voz do protagonista existe uma outra voz – a de Alea – que o coloca em perspectiva, desautoriza sua coerência. Surge uma dimensão na qual o diretor busca um descolamento do sujeito representado, articulando a escrita fílmica – as diversas possibilidades de organização da imagem, do som e do tempo – para criar esse espaço entre o que Sérgio diz e o que vemos, um espaço de contradições. Um jogo de forças que o diretor, por percebê-lo na realidade, tenta evidenciar ao espectador pela representação.      

Ao fim, nos marca a capacidade de Memórias do Subdesenvolvimento para dialogar com seu presente histórico. Ele nasce num momento em que todos os olhos do mundo se voltam para a efervescência da Revolução cubana e seu impacto numa América Latina instável, pronta para explodir. O jogo de contradições entre imagem e som, narrador e personagem, filme e mundo não faz outra coisa que remeter às contradições internas latentes dos grandes discursos sociais de sua época. Alea, partidário da revolução socialista, trabalhou para o ICAIC (Instituto Cubano del Arte y Indústria Cinematográficos) e por vezes transcendeu os limites do itinerário ideológico do governo de Fidel Castro, não raro causando mal estar. Seu cinema incomoda por recusar a idéia de stablishment, por ver a realidade como constante embate de forças, onde nenhuma revolução é permanentemente ganha.    

Fábio Menezes

1Sugestão de leitura: ALEA, Tomás Gutierréz: Dialectica del Espectador. La Habana: Ediciones Unión, 1982.

Comments

Comment from Rogério
Time 9 de agosto de 2011 at 15:45

Download do Filme – Memórias do Subdesenvolvimento http://fwd4.me/08al

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