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Nathalie Granger

Natalie Granger é um filme que nos fala em silêncio. Cercado de imagens de vazio da casa, às vezes refletidas por espelhos ou pela água a fim de intensificar essa falta de algo o filme conta uma suposta tarde de Isabelle, sua Amiga e suas duas filhas, Laurence e Nathalie que registra um caso de violência na escola. O tempo é dividido de maneira não linear, na verdade até mesmo a passagem de tempo entre as ações podem ter minutos ou meses. O espaço é dividido entre o lado de dentro e o de fora, lá é o nosso mundo, uma pessoa comum, como o vendedor. Dentro da ilha que elas criam se sentem solitárias e indefesas, apenas vivem lá de maneira normal e simples. 

Essa violência, porém, não é uma característica da casa e de suas personagens, que, pelo contrário, vivem tranqüilas em uma solidão por escolha, a medida do possível. É sim uma característica do mundo exterior a casa, e que chega até nós através de interlocutores externos, o radio e a diretora. Dentro do clima bucólico da casa, as ações são construídas com a intenção de reforçar a tranqüila harmonia em que elas vivem. É o gato preguiçoso, são as ações cotidianas, a interação com os quatro elementos, o som diegético reduzido. Tendo assim, as duas amigas, criando um ninho seguro, onde podem criar e curar as duas crianças dos males que vem de fora.

A amizade das duas protagonistas é plena, o que quebraria o silêncio e a solidão que reina nas tardes daquela casa não chega a ocorrer. As duas amigas se comportam como se fossem uma, ou melhor, como se fossem um apêndice, um complemento, tanto no ato de lavar as louças até a conversa no telefone. Tendo a Isabelle como principal protagonista e sua amiga, que não tem nome nem historia, apenas uma companheira presente todo o memento que cuida ainda mais da casa e que, desde o inicio, acaba vivenciando e sentindo o mesmo que sua colega.

Outra excelente união que há no filme é entra a narração e a trilha de pianos, única trilha musical do filme. Além de dar a impressão de dividir a lentidão do filme em pequenos capítulos, que não difere entre si, e de ressaltar a solidão em seus solos. A lição de piano que a Natalie toca entra na trilha diegética ou não-diegética toda vez que a mãe pensa na filha. Vale apena lembrar que o piano é um instrumento que dificilmente sairá da casa, curando-a de seu problema não só pelo poder que ele exercerá na garota, mas também por conectá-la ainda mais ao ninho.

Por outro lado essa suposta solidão e esse silêncio servem, na verdade, como instrumentos da luta feminista. Quase como uma arma, essa forma narrativa mostra uma variação da velha narrativa cinematográfica patriarcal. O que acaba gerando para nós, espectadores acostumados à clássica linguagem patriarcal, múltiplas possibilidades interpretativas da vida na casa. Ou seja, será que o silencio se deve a preocupação com Natalie, será que elas usam o silencio para enfrentar a sociedade masculina, será um silêncio, pois nada precisa ser dito?

Saulo Rosa

¹DURAS, Marguerite. Escrever . Trad, de Rubens Figueiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 13.

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