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O Espelho

É como se fosse o conceito primordial da cinematografia moderna a fragmentação da narrativa. Mas não, a narrativa é o meio caótico encontrado pelo interlocutor, e esse sim, encontra-se estilhaçado. A forma conflui como conteúdo, e não há mais uma separação conceitual para elas (se é que já houve de fato). O Indivíduo dividido tornou-se Sujeito. A realidade vem de dentro pra fora. A história de um povo é o recorte de cada Sujeito. E o espelho nos encara. Não só o nosso reflexo que reluz em plano, mas a Imagem, esta que carrega toda uma vida de tudo o que está sendo feito. A face de um tempo contínuo em que o pretérito e presente são os mesmo, interpolados por cacos de espelho.

«As palavras não tem capacidade de traduzir sentimentos. As palavras são flácidas» diz Aleksei à sua mãe. Talvez o grande mote do filme, assim como toda a sua era, é o problema da comunicação. O traduzir/ significar são verbos que pedem uma resposta lógica e linear, o que não existe tratando de sentimentos, de comunicação. Creio que Tarkovski não responderia que a Imagem teria essa possibilidade de suprir a incapacidade das palavras, pois a pergunta seria errônea, a Imagem quer deslocar o senso óbvio, não traduzir, mas transcender.

O Espelho, assim com O ano Passado em Marienbad (1961) de Resnais, trabalha com ambivalência e coexistência de tempo e espaço rupturados. Aqui não se aplica o conceito de flashback, não há uma âncora temporal, todas as Imagens permanecem e se recriam. A memória não possui uma linha reta, e o olhar para ela sempre será com os olhos do presente. E até que ponte segue a segmentação entre memória e imaginação?

O Cinema de Tarkovski é feito da contemplação. Sua Imagem foi além do seu significado didático e retórico, que por hora serviu Eisenstein, buscando a idealização do homem socialista. Tarkovski, não menos político, recria a história soviética metonimicamente, da parte pelo todo: o Sujeito por uma Nação. E não o todo por partes (ditas como iguais): o Ideal como um povo e seus Indivíduos.

Sendo assim, Tarkovski aprecia cada nuance de sua memória e vaga por elas em planos-seqüências à procura de um laço familiar, a câmera espreita cada fresta e obscuridade, rotacionando em busca de um reflexo espelhado que remete a outra lembrança ou mesmo a um presente não-contemporâneo.

Se há necessidade de, ainda assim, encontrar um enredo para a obra: trata-se de um homem espiritualmente enfermo, querendo desvanecer dos rastros de lembranças suas, de sua família e da civilização, mas estas persistem como o vapor quente de uma xícara sobre uma mesa de madeira.

Esse é filme mais autobiográfico do diretor, em que muito se assemelham o protagonista e o diretor, nesse filme de lembranças a câmera é o narrador, e esse é Tarkovski. O Espelho é, também, um enorme banquete para a psicanálise, o simbolismo do Ego como espelho, a clara ligação edipiana em que mãe se reflete em esposa, a onisciência fálica paterna e os poemas escritos e ditos por seu pai. Mas falemos de Cinema e seus interstícios imagético-sonoros.

Rodrigo Ramos

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