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Persona

“[Que] haja luz, e houve luz”. Logo nos primeiros planos do filme, temos em uma montagem bastante fragmentada uma aula bastante rápida de História do Cinema: um projetor que começa uma exibição, animações desenhadas na película, pequenos filmes teatrais; e imagens bem menos inocentes como o abate de uma ovelha, um pênis e uma mão sendo pregada a uma superfície. É como se Bergman nos comunicasse, sem falsa modéstia: passamos por isso tudo para chegar até esta obra, um marco na história do Cinema.

Um menino se levanta de uma cama. Ele é interpretado por Jörgen Lindström, o mesmo ator de O Silêncio (1963), um filme anterior de Bergman no qual tal garoto interpreta uma criança rejeitada pelas duas mulheres que o criam. As ligações entre esses dois filmes são dificilmente mera coincidência, já que os dois tratam da incomunicabilidade, da guerra e da maternidade mal-resolvida resultando em rejeição. Uma frase, dita em O Silêncio pelo personagem de Jörgen a uma de suas ‘mães’ é uma ótima ligação com Persona: “ele está com medo, por isso fala uma língua estranha”. Essa língua estranha, no caso do filme de 1966, é o próprio silêncio, que comunica de uma forma incômoda.

Elizabet Vogler (interpretada por Liv Ullmann) é uma atriz que emudece durante uma apresentação teatral e assim permanece há mais de três meses. Alma, uma enfermeira mais jovem que Elizabet, é recrutada para ajudá-la nessa condição. Mas o que teria causado seu silêncio, afinal? O horror da guerra, que claramente a afeta? Ou talvez a incapacidade de enfrentar o abismo entre quem ela é enquanto pessoa, quem ela interpreta enquanto atriz e quem ela interpreta enquanto ser social? Seria sua própria apatia agora uma persona, um outro papel? É possível ser honesta nesse silêncio que ela propõe para si? Muito em Persona são perguntas, pois muito pouco é concreto – nem mesmo se Elizabet e Alma são pessoas diferentes.

A relação entre essas duas mulheres tem vários momentos durante o filme. Alma sente-se poderosa na relação médico-paciente que é estabelecida primeiramente entre as duas, mas logo percebe que é Elizabet quem detém o poder da relação por seu silêncio. Alma é quem fala, e confessa segredos que lhe atormentam a existência – uma orgia extra-conjugal seguida de aborto – enquanto a personagem interpretada por Ullmann mantém seu escudo silencioso e a analisa como uma psicóloga o faria, revertendo a relação médico-paciente enquanto as duas vão perigosamente perdendo suas identidades, tornando-se uma pessoa só em uma cena apavorante.

Outra relação que é colocada em questão é a do espectador em relação ao filme, que nos evidencia diversas vezes ser uma obra montada de ficção, seja pelo filme que queima do projetor no meio da exibição ou toda a equipe técnica que aparece no final. Ainda assim, a narrativa é tão potente que não nos sentimos expulsos da diegese.

Seria o menino da sequência inicial o filho abortado de Alma ou o filho rejeitado de Elizabet? Elas são parte da mesma psique? É tudo um sonho? São várias as perguntas que Persona deixa no ar, e a cada vez que se assiste tem-se uma nova interpretação. Este é um filme que continua a fascinar há mais de 40 anos, e poderíamos apontar em seu mistério uma razão para sua longevidade.

Yuri Cunha

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