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A Chinesa

O cinema de Godard sempre foi político. Os seus primeiro filmes apresentam o seu expediente, quase dialético, de fragmentação e continuidade, referências e críticas. A partir desse olhar nada inocente sobre o mundo e a arte, concentro-me no momento que me apetece: A Chinesa, “um filme em processo de feitura”. Esse subtítulo, exibido logo no íncio do filme, não refere-se apenas à forma improvisada e esquemática do filme, mas expõe a instabilidade de toda tentativa de um cinema genuinamente político.

O ínicio da revolução cultural chinesa e o abrandamento do comunismo europeu são o tema, o cenário e até mesmo a trilha sonora do filme. Nesse sentido, A Chinesa tem o privilégio do momento, explorando a tensão social que acabará resultando nas revoltas de Maio de 68. Cinco  jovens passam o verão num apartamento, uma espécie de colônia de férias comunista, aplicando as idéias de Mao Tse-Tung e criticando o “aburguesamento” da União Soviética e do Partido Comunista Francês, até que os donos da casa voltem de viagem. Os cinco representam de alguma forma determinados sujeitos sociais: a estudante de filosofia, invocando ações imediatas; o ator em busca de um teatro realmente socialista; o rapaz pesquisador, teórico, lógico; o pintor introspectivo e sensível; a empregada ingênua, de origem rural. Suas atividades vão evoluindo de estudos, aulas dadas por eles e para eles, para a ação terrorista que supostamente irá desencadear a revolução.

As relações desses personagens não limitam-se ao que está dentro da casa, dentro do filme. Numa das paredes da casa lê-se “é preciso confrontar idéias vagas com imagens claras”. Godard quer levar a discussão para o espectador, instigá-lo com suas imagens exatas, de cores bem definidas. O método é moderno: usar meios documentais para construir uma ficção, não almejar fantasia ou realidade, mas insinuar questões acerca de um momento, de uma situação. Godard entrevista (offscreen e ináudivel) o seus atores individualmente, que, olhando para a câmera, respondem como seus personagens, mesclam discurso e improvisação. Dessa amálgama vislumbra-se a posição do diretor como frente a arte e a política. Os trabalhos posteriores de Godard irão evidenciar melhor a sua vontade política, unindo-se à Jean-Pierre Gorin e ao Grupo Dziga Vertov para fazer filmes mais radicais, polêmicos, de caráter claramente esquerdista. Mas não irei tão longe.

Ainda em A Chinesa, aponto uma tentativa de alcançar uma representação política justa, claremente posicionada, mas que não teme o questionamento. Vemos, pouco antes de praticar um atentado, Véronique entrevistar num vagão de trem Francis Jeanson, professor e ex-resistente da Argélia. Os idéias utópicas de Veronique, precipitada frente a questão social francesa e a postura mais conservadora de Jeanson confrontam-se apenas para gerar mais ambigüidade, revelar a fragilidade das idéias. O próprio apartamento é construido como um microcosmo, um pequeno mundo fechado em si mesmo, com slogans e imagens nas paredes, pintadas com as cores da França. Essa abstração do cenário é reflexo do próprio filme, como nas paredes, a tela é invadida  por frases e imagens de revoltas, Shakespeare, quadrinhos, a claquete e a câmera, num discurso por vezes direto, mas também confuso.

Ao incluir referências documentais e aspectos anti-ilusionistas, Godard apropria-se de uma câmera cínica, resguardada na distância e na desdramatização do discurso falso e da entrevista irreal. Como Guillaume, o personagem ator, busca uma forma artística genuinamente política. Tal é a identificação de Godard com Guillaume, que, ao apagar num quadro o nome de vários escritores, deixa apenas o de Brecht. O dramaturgo socialista é presença constante na filmografia godardiana e nessa vaga relação de idéias, está demonstrada a vontade por trás do filme. A tentativa de fusão entre a arte de vanguarda e a arte didática, que irá guiar Guillaume ao teatro de porta em porta, de rua, radical em sua proposta política, é a mesma que guiará os filmes de Godard.

Thiago Santana

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