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Ano Passado em Marienbad

O que são, em suma, todas essas imagens? São imaginações: uma imaginação, se bastante viva, está sempre no presente.¹

Essa talvez seja uma das máximas preponderantes a se considerar quando se assiste esse filme. Isso porque, imagino, quem procure uma história em O ano passado em Marienbad não vá passar por uma grande decepção, mas também não vai atingir o objetivo. A narração em off cria a todo momento o ensejo da história, torce em direção a algo que nunca alcança; porém, basta abrir os olhos pra ver que o “ano passado” é agora, e no cinema tudo é presente. Como no poema homérico, é preciso parar a história e desviar o olhar pra um passado que presentifica, distender a narrativa para contar outra ligada à primeira, mas fora da sua linha.

Já a língua é dotada de tempos verbais e pode ser conjugada no passado. O embate dessas propriedades (a da imagem e a da língua) leva a acronia do filme, pois enquanto o personagem principal nos conta sobre o passado, nós vemos puro presente carente de qualquer ordenação, imagens em diálogo com o narrador, como duas ondas moduladas que se cruzam e se afastam.   Alain Robbe-Grillet parece se negar a contar, circunda possibilidades, enseja um estupro, um caso, um assassinato passional, um sonho, passeia por um vórtice de narrativas à procura da ficção, da representação. Não é por acaso que tudo começa com uma peça e, a partir daí, as falas ressoam, reaparecem a todo o momento recontextualizadas, no limite entre a memória e o imaginado.

Resnais articula a imagem com o imaginado. Passeia pelos corredores, pelos espelhos, os salões, jardins, colunas, quadros, ornamentos, descreve um espaço descontínuo que nunca chega a ser Baden-Salsa, Marienbad, Frederiksbad, Karlstadt. As locações mudam no meio da cena, as próprias ocorrem recorrentes em locações diferentes, como se não pudesse lembrar exatamente o que aconteceu onde, ou sequer haja o que lembrar. O edifício se movimenta com a narrativa, torna-se impreciso como ela. Os hóspedes imóveis fazem parte desse cenário com suas falas entrecortadas, nunca chegam a esclarecer algo, suas ações nunca chegam a ter conseqüência, são apenas o murmúrio que alimenta a narrativa principal, assim como os móveis compõe a cenografia e inevitavelmente reverberam nas ações.

Seria um bocado decepcionante criar toda essa atmosfera sem um objetivo, despropositadamente. Acredito não ser o caso. Resnais, já em Hiroshima, mon amour trabalha com a memória, sua imprecisão e seu poder criativo. Em O ano passado em Marienbad a experiência memorial se radicaliza, confunde-se com o desejo, imiscui-se no mundo material. Já não há mais limite entre aquilo que se lembra e aquilo que se é, o caminho se confunde com a chegada, a temporalidade vaporiza e tudo se transforma num grande drama humano. A mulher, o marido, o amante, todos inominados, residentes da fronteira do sonho, são algo que arquetípicos, algo entidade, representam a culpa, o anseio, o amor, a frustração. O filme se transforma no reflexo descarnado das nossas experiências.

Francisco Orlandi Neto

¹ROBBE-GRILLET, Alain. O ano passado em Marienbad; tradução Vera Adami, tradução da introdução Elisabeth Veiga – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

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