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Filme de Nick

No começo da década de 80 o cinema morreu. Ao menos é o que cineastas como Jean-Luc Godard, Rainer Werner Fassbinder e Wim Wenders pensavam. Filmes como Passion, Querelle, Quarto 666, O Estado das Coisas e este Filme de Nick são reflexo e tentativa de resposta para um momento de forte mudança no cinema e do surgimento de uma nova ordem mundial: a vitória do liberalismo e da sociedade de consumo sobre o projeto das esquerdas.

Mas o que seria a morte do cinema? Uma primeira pista é que muitos cineastas começavam a sentir uma grande dificuldade em fazer filmes e criar imagens. Havia o mal-estar de se carregar a história do cinema nas costas e a impressão de que tudo já foi feito. Juntamente, novas tecnologias de captação de imagem começavam a surgir, como o vídeo analógico, acabando com toda a aura que havia na relação entre a película e o registrar a realidade. Havia também a perda do monopólio que o cinema há décadas manteve do imaginário popular. As imagens de referência estavam agora na televisão e na publicidade. O cinema de fato parecia perder cada vez mais terreno, e perdeu. Contudo, mais do que qualquer desses aspectos, a morte do cinema parece ser a morte do cinema moderno, a morte do sonho de um outro cinema, que fazia da estética e política uma só coisa.

É aí que Filme de Nick parece ser exemplar. Talvez o maior testemunho da angústia e da deriva que o cinema enfrentava nesta época. Se num primeiro olhar o filme é visto como um documentário sobre a morte de um diretor, é no trato e na reflexão da imagem que parecem estar suas maiores qualidades. Quando Wim Wenders decide registrar, com total colaboração de seu “objeto”, os últimos momentos da vida do grande cineasta do cinema clássico Nicholas Ray (Juventude Transviada, No Silêncio da Noite, Johnny Guitar), o que na verdade ele realiza é um diagnóstico da situação da imagem no cinema.

O grande trunfo de Filme de Nick é sem dúvida a total perda dos referentes de qualquer uma de suas imagens, uma espécie de jogo de espelhamento entre os registros de película e vídeo, através das variações de grau de encenação, que faz com que um anule o outro. Sempre quando vemos um filme, seja documentário ou ficção, visualizamos um sujeito virtual e um contexto responsável pela origem dessas imagens. O que Filme de Nick opera é a total sabotagem da nossa imaginação desse sujeito. As imagens parecem não ter origem, caindo numa vala de imprecisão entre o real e o nada, a verdade e a mentira.

Esta imagem sem força, sem origem, essa sensação labiríntica, é o grande diagnóstico de Wenders sobre o estado atual da produção de imagens. E nesse sentido, a imagem em vídeo é um complemento tão perfeito que chega a ser ironicamente cruel. Em contraste com a película (e evidenciado por Wenders pela explosão de luminosidade no começo de cada gravação), a imagem em vídeo é uma imagem morta e aleatória. Há um excesso de imagens no mundo, elas são produzidas de qualquer maneira e não há qualquer ética por trás da câmera. A imagem é sintética, composta por pixels (se tornando facilmente manipulável), instável, banal, chapada e filma convulsivamente o nada.

Mas no meio deste registro apocalíptico Wenders e Ray realizam um ato de fé, uma última aposta na imagem. Quando a morte, um dos momentos mais singulares da existência humana, surge diante do registro cinematográfico, é como se este, na iminência do rompimento do objeto filmado, ganhasse uma potência nunca imaginada, calcada na vocação que o cinema parece ter para desvelar a realidade (conceito muito caro a teoria de André Bazin, como escreveu Ismail Xavier no prefácio da coletânea sobre este autor). Antes do epílogo do filme temos a morte simbólica de Ray. Um registro cru em película, triste, um ato de sacrifício, em que a imagem volta a ter referente, em que o olho e a realidade novamente se alinham em um eixo.

É em clima de funeral e ao mesmo tempo exorcismo que termina Filme de Nick, com a equipe de filmagem numa confraternização em um barco oriental à deriva em Nova York, em um cinema à deriva no ocidente. Ao dizer cut, Nicholas Ray morreu. Mas neste momento, neste evanescente instante de apagamento, fez o cinema renascer. Nicholas Ray e o cinema, por este gesto, estarão sempre vivos.

Lucian Chaussard

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