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Ladrões de Bicicleta

“Não há mais atores, não há mais história, não há mais encenação, isto é, finalmente, na ilusão estética da realidade, não há mais cinema.”
André Bazin

O neo-realismo italiano tem seu ínicio com o fim da 2ª Guerra Mundial. Vários filmes da época encaixam-se num programa a príncipio político, opondo-se radicalmente ao regime fascista e a sua produção artística. O cenário social é uma Itália destruída pela guerra, que busca o seu presente, que exige uma discussão sobre a situação povo, oprimido e cansado. O cinema coloca em debate assuntos políticos, a guerra, o fim do fascismo, as dificuldade impostas pelo capitalismo. Contudo, escolhas estéticas dos cineastas vinculados ao movimento apontam para além desse contexto histórico simplório, promovendo uma nova relação entre o cinema e o espectador, esboçando as bases de um cinema moderno.

Para falar de neo-realismo, invariavelmente é necessário evocar a figura de André Bazin, teórico e crítico de cinema, co-fundador da revista francesa Cahiers du Cinéma e maior entusiasta do poder realista do filme. Bazin vê nas novas tecnologias (principalmente com o surgimento do cinema sonoro) uma evolução rumo a um estilo narrativo mais próximo do real, que se distancie tanto da montagem clássica convencional, quanto da vanguarda anti-realista. Para ele, o cinema é a realização máxima do fetiche humano de mimetizar a realidade, a obssessão pelo realismo satisfeita através da reprodução mecânica. Tem fé na verdade da imagem, condenando a trucagem que a montagem promove, admitindo apenas como válido o que seja construído, em duração, na frente da câmera. As teorias do francês apontam para uma representação justa da realidade, onde ela possa falar por si própria, com todas as suas ambigüidades. E terá no cinema neo-realista seu modelo maior, apontando no seu uso de planos sequências e profundidade de campo mais que um estilo inovador, uma vontade expressa de revelar o que existe de realidade no filme, fazer um cinema à imagem e semelhança da realidade.

Explicito aqui características básicas: a filmagem em externas e em cenários naturais; o uso de atores não-profissionais, normalmente pessoas locais; roteiros com personagens simples, pobres, retratando o cotidiano e a psique italiana; produções pequenas e modestas. Nesse sentido, Ladrões de Bicicleta é um ícone, resultado do trabalho conjunto de Vittorio de Sica com Cesare Zavattini (escritor e um dos principais pensadores do neo-realismo). A busca de Ricci por sua bicicleta roubada, garantia de seu trabalho, numa Itália em reconstrução, vítima do desemprego generalizado, foge de elucubrações políticas rasas através de um humanismo paciente. A construção elaborada de um discurso direcionado não é o alvo, mas a ambigüidade defendida por Bazin e Zavattini, para quem a vida vale mais que a imaginação. A mise-en-scene seria um empecilho frente ao retrato justo da dor humana. A realidade deve bastar, ser observada com cuidado, sem grandes fantasias, ater-se à contemplação, reduzindo a montagem e a dramaturgia ao mínimo necessário. Estaria nessa idéia o conceito de uma nova relação da obra com o espectador, ao diminuir o poder de persuação da montagem o espectador tomaria uma atitude menos passiva, agiria junto ao filme, intrigado por um autor que se recusa a manipular a natureza.

Faço ressalvas, hoje, a essa discussão, que parece referenciar mais os experimentos extremos de Andy Warhol do que o neo-realismo italiano. Não recuso a sua posição de influência, de pedra fundamental para os novos cinemas. Bazin teria encontrado em Ladrões de Bicicleta um embrião para suas idéias, pois o filme ainda exala uma carga dramática certa. É sensível o sentimento de pai e filho ao abrigarem-se da chuva, mas também é manipulado. É díficil ver o cineasta como uma simples testemunha dos eventos que ele elaborou. A mise-en-scene do filme ainda é clara, uma trajetória quase kafkiniana, com múltiplos obstáculos, sejam os modernos carros e caminhões na ruas cruzando a tela, sejam as incontáveis bicicletas em todos os cantos, ou a multidão, crescente, apertando os personagens e, por fim, engolindo-os.

Thiago Santana

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