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O Desespero de Veronica Voss

O fim do módulo “Cinema Moderno” proposto por este cineclube está próximo, então, estes últimos filmes exibidos aqui demonstram uma certa fadiga das convenções formais tão inovadoras e refrescantes que caracterizaram o cinema moderno. Se no filme anterior. Uma Mulher Sob Influência de Cassavetes, a estrutura dramática do teatro traz de volta uma linha narrativa, um sutil retorno ao cinema clássico, Fassbinder, outro diretor de relação íntima com o teatro, retorna ao clássico ao incorporar o gênero melodramático aos seus filmes na década de 70, Douglas Sirk é sua principal referência.

Se Godard, como vimos em Acossado, faz uma ode ao cinema noir, Fassbinder faz melodramas, revitaliza o gênero de forma crítica. Algo parecido com o que Sergio Leone faz com o western, porém o hoje no cinema o velho oeste está morto(talvez excetuando em raras aparições como Rápida e Mortal de Sam Raimi, Kill Bill de Tarantino ou Era uma Vez no México de Robert Rodriguez). Por sua vez o melodrama também é revigorado dentro de Hollywood, que por sua vez retorna ao clássico, realimentando a “fabrica de sonhos” que junto da evolução tecnológica faz Hollywood se recuperar da crise iniciada nos anos sessenta.

Uma das figuras chaves do cinema novo alemão, Fassbinder é dono de uma cinematografia incansável, são cerca de quarenta filmes em treze anos de carreira, e isso não é tudo, nos primeiros filmes, Fassbinder escrevia, dirigia e ainda editava. Pouco tempo depois de lançar Veronika Voss no cinema o diretor morreu aos trinta e sete anos, alguns indicam suicídio, ou “somente” uma overdose de cocaína e soníferos.

O cinema de Fassbinder buscava alcançar a realidade através da sua subjetividade, muito dos seus filmes são baseados em experiências do próprio cineasta. A forma do filme sempre artificiosa fazia parte da composição realista “quanto mais verdadeiras são as coisas, mais feéricas são” afirma o diretor. O melodrama aqui é bem apropriado, a mise-en-scène do gênero é permeada pelo exagero desde atuação até cenografia. Para Fassbinder os personagens devem trazer a identificação com o público, porém existe o distanciamento para que o espectador mantenha uma lucidez para não se perder na história. A forma de mesclar melodrama com Brecht, duas propostas divergentes, é talvez o modo de conseguir construir um mundo complexo e real.

Veronika Voss e Robert são personagens amarrados em uma situção que não permite muitas escolhas, o jornalista esportivo se envolve amorosamente com a atriz, e o amor exerce um encantamento quase hipnótico, no qual faz com que o personagem perca sua capacidade de deliberação, faz de tudo para salvar a mulher por qual se apaixonou, mesmo quando tudo lhe indica que isso não daria uma boa história jornalisticamente. A atriz decadente está se definhando, tem acessos de loucura e já não consegue atuar com concentração, ela já não tem saída não pode voltar a ser atriz como era antes (o termo alemão Sehnsucht se refere a um grande desejo de impossível realização) assistir o desespero de Veronika é tudo que nos resta, enquanto ela toma seu “Veneno Traiçoiro”.

No melodrama de Fassbinder não há o bom e o ruim, mas sim uma relação de poder, a dominação do outro para alcançar a sua própria satisfação. Todos os personagens parecem intrincados nessa rede onde se domina alguém, mas se é dominado por outro, retomo aqui o amor e o veneno de Veronika que parecem compor essa rede de relacionamentos. Dominador/dominado não devem ser levados como formas dicotômicas relacionadas ao bem e o mal, mas como elementos simbióticos, assim como o preto e o branco da fotografia.

O artificialismo da bela iluminação presente perceptivelmente nas cenas com “iluminações de vela” parece reforçar o aspecto estranho da imagem, e lembre como é incomodo entrar no consultório/casa da Dr. Marianne Katz no ambiente excessivamente branco, clean e sobretudo perverso e angustiante. Jacques Aumont coloca que Fassbinder não quer mudar o mundo, mas salvar o espectador, torná-lo mais lúcido no mundo, através do reconhecimento na imagem fílmica o universo de horror, a estranheza e o insuportável da vida.

Bruno de Alencastro Grandi

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