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Pickpocket

Atrás das grades, Michel olha para Jeanne e percebe que alguma coisa iluminou seu rosto. Aproxima-se, e então diz “Oh Jeanne, para alcançá-la, que estranho caminho eu tive que tomar”. Este curto e derradeiro momento é o único de Pickpocket em que as emoções não estão veladas. E é no seu contraste com o percurso apático de Michel que o cinema de Robert Bresson se manifesta.

Livremente inspirado em Crime e Castigo, de Dostoievski, Pickpocket parte da mesma premissa do livro: Michel tem a tese de que na sociedade há dois tipos de pessoas, os ordinários e os extraordinários. Estes últimos, por terem a possibilidade de realizar grandes feitos, deveriam, para o ganho de todos, ser livres e estarem acima das leis. Michel se acha uma dessas pessoas. E junto com essa afirmação de superioridade, uma falta de sentido em sua vida e a dificuldade em conseguir trabalho o fazem agir. Assim, ele sucumbe à tentação e começa a roubar carteiras. É em um hipódromo, no momento decisivo da chegada dos cavalos, que a moral é rompida. Michel atende não mais pelos valores de Deus, mas pelos seus próprios.

O caminho de Michel pelo crime se dá na companhia de outros ladrões, que o ensinam técnicas e o incluem em ações coletivas. Em contraponto, o delegado acompanha ostensivamente sua vida, o levando ao incômodo pela mera observação passiva, mesmo que desconfiada. No limite dessas relações e na aproximação com Jeanne, Michel alcançará sua redenção e conquistará sua maturidade. Contudo, os caminhos de Pickpocket não se dão propriamente pelo desenrolar da trama. Há um forte desconforto em sua representação, uma imobilidade, uma apatia geral que toma conta do filme, seja na frieza do olhar da câmera, ou no comportamento dos personagens. Há uma negação do manancial expressivo da linguagem cinematográfica que aponta para algo.

Esta suposta negação expressiva do cinema se manifesta como uma ascese. Os personagens agem de maneira velada, não há entonação nas vozes, há pouco drama e as cenas não parecem ter muito peso de realidade, pois não passam de reflexões em um caderno. E o que isso nos diz? Michel não parece estar atento ao mundo, tem atitude fleumática e vê no roubo de carteiras uma das poucas coisas que o fazem sentir vivo. Todos esses dados nos levam a crer que o filme tenta abordar algo que está além do visual, além do que o cinema pode mostrar. O que Pickpocket parece sugerir é o percurso da alma de Michel, o caminho de alguém perdido que reencontra a luz e o sentido no amor de uma mulher.

As operações cinematográficas que evidenciam o movimento da alma refletem aspectos gerais da carreira do diretor. Pickpocket está no meio de sua filmografia, entre os primeiros temas que tornaram seu cinema conhecido (a redenção da alma, influência do jansenismo, vertente católica da qual fazia parte) e um rigor cada vez mais crescente e pessimista de seu estilo, registrado em 1975 no livro Notas sobre o Cinematógrafo. Nele, Bresson afirma “Dois tipos de filmes: aqueles que utilizam os recursos do teatro (atores, encenação etc.) e se servem da câmera com o intuito de reproduzir; aqueles que utilizam os recursos do cinematógrafo e se servem da câmera com o intuito de criar.” Vê-se aí uma clara oposição ao cinema que mimetiza o teatro, por isso, ele usa a palavra cinematógrafo para definir a forma pura de cinema que tentava conquistar. Dentre as estratégias desta forma está o uso de modelos no lugar de atores, pessoas comuns treinadas por Bresson para não atuar e para desenvolver uma técnica de entonação quase monocórdica, destruindo qualquer possibilidade de efeito dramático. Além disso, a utilização econômica e essencial das bandas de imagem e som, para alcançar uma pureza pelo rigor e remeter ao não-visual.

A operação inversa que Bresson propõe, que seria a negação das possibilidades do cinema, para além de uma austeridade, frieza e distanciamento, é uma doação, uma grande generosidade. Bresson compartilha a Paixão do indivíduo na conquista da sua maturidade espiritual. O tormento de Michel o distancia das pessoas, pois sua alma está em conflito. Que metáfora mais bela para essa tormenta do que a do batedor de carteiras, aquele que tenta ao máximo se aproximar, mas que mesmo assim se encontra terrivelmente distante?

Lucian Chaussard

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