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Quem Bate à Minha Porta?

Culpa, contradição esquizofrênica entre o que se prega e realiza, moralismo cristão em crise dentro de uma sociedade transformada, tradição que agoniza em meio a questionamentos que se voltam para si, o amor descontrolado. Temas relacionados a J.R., figura cuja complexidade advém justamente de não ser reduzido à uma idéia de representatividade da juventude da época, seja ela visionária e transgressora, seja acima de tudo conservadora. Ele oscila, preso na perpetuação de uma amedrontadora ambigüidade moral e o vazio de uma incerteza de identidade social.

Em evidentes cores autobiográficas (Scorcese compartilha do mesmo crescimento católico e imigrante italiano na periferia de Nova Iorque), J.R. se mostra incapaz de conciliar os amigos, a garota (que jamais deixa de se chamar the Girl, ressaltando que ainda se tratam de garotos, não adultos) e Deus em uma só vida. Ele espera por uma salvação que nunca se apresenta, suas escolhas sendo mais limitantes que libertadoras.        

As influências estão todas lá; um Acossado das várias Nouvelle Vagues, uma tentativa de Neo-Realismo (mesmo que mais norte americano que italiano), uma homenagem ao Cinema Clássico com seus westerns e John Wayne, um Cassavetes que viria a ser, uma vontade de se passar Antes da Revolução de Bertolucci (mesmo que essa revolução nunca chegue da mesma forma). O que resulta é uma narrativa solta (à beira do descontrole?), que suspende a progressão de um enredo a fim de um trabalho psicologicamente mais completo, e um formato que ao menos tenta se aproximar do experimental. Essa suspensão seria empregada mais a fundo em Mean Streets (1973) anos depois, e de certo modo serve de espelho para a postura dos jovens que escolhe retratar, a maneira despreocupada que encaram suas existências e a falta de projeção de um futuro que os motive.

Ainda ecoando vestígios de sua origem universitária – uma versão inicial em curta fora concebida em1964 como o trabalho final de graduação do diretor – o filme enfrentou uma série de modificações antes de tomar a forma que possui atualmente. O fato das filmagens terem durado vários anos (a versão final se separa em 5 anos da inicial), e de intervenções alheias terem sido incorporadas fez da obra um algo falho, em vários pontos arrastado, mas que não deixa de revelar uma criatividade da mente geradora. Exemplos dessas incorporações seriam virtualmente todas as cenas com a Garota (linha narrativa pensada somente em 1968), e a passagem com as várias mulheres ao som de The Doors, filmada em Amsterdam e derivada de uma exigência do produtor por mais nudez. Idéia que surge como jogada mercadológica e é realizada anos depois em outro continente, mas que ainda se transforma numa das seqüências mais interessantes da obra.

Considerado por muitos um filme menor (tanto na filmografia do cineasta quanto em sua representatividade na História do Cinema), Quem bate à minha porta desmonta as críticas contrárias ao se mostrar um símbolo, e, de certa forma, ponto de partida para uma ousadia e revigoração no Cinema Americano da época. Indo além do simples mérito estilístico de um cinéfilo universitário, seu ponto positivo reside na maneira que luta para conservar seus personagens como seres definitivamente humanos – falíveis, errantes e, em conseqüência, espantosamente reais.

Carla A. A. Italiano

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