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Woman Under The Influence

Cassavetes queria contar histórias de uma sociedade onde a vida e o espetáculo se misturam. No inicio de sua carreira como diretor (no filme Shadows, de 1959) é possível perceber a influência do neo-realismo italiano (ligada a experiência como espectador e manifestada principalmente no uso de atores não-profissionais), da televisão (devido às experiências precedentes como ator no meio) e do novo documentário americano que buscava filmar a vida verdadeira de pessoas autênticas. Mais tarde Cassavetes conclui que seu cinema deveria ter um hibridismo entre Frank Capra e Carl Dreyer: o espetáculo e a escrita.

Em Shadows, Cassavetes se apaixona pelo poderio da câmera e do ritmo, mas volta a por os pés no chão ao se dar conta que tanto a câmera quanto o ritmo deveriam estar subjugados aos personagens e à narrativa. Assim, ele se recusa a submeter-se restritivamente à técnica.

A íntima relação de Cassavetes com os personagens remete à sua formação inicial, no Actor’s Studio, onde apreende o Método Stanislavsky. Depois de anos vagando pelo meio teatral – dirigindo, escrevendo e atuando -, Cassavetes descobre no cinema o ambiente onde poderia exercer sua vontade latente de dirigir os atores e tomar a iniciativa da mise en scene. Na sua obra cinematográfica o vestígio do método (ou o seu aperfeiçoamento do Método) é a teatralidade: hiperexpressão do corpo, do gesto, da palavra. E tal teatralidade se metaformoseia e ganha dimensão de existência. Cassavetes inscreve o teatro na vida, ou melhor, encurrala o instante em que a vida se torna teatro.

Os textos de Cassavetes são impregnados pela estrutura dramática do teatro. Uma Mulher Sob Influência, por exemplo, foi inicialmente formatado como texto teatral. Quanto à relação com o ator, temos filmes com cenas longas que respeitam a unidade de espaço e tempo, garantindo o melhor desempenho do ator. Cassavetes trabalhava com os atores de forma que o espectador criasse uma confusão entre o ator e os personagens. Ensaiava incessantemente e buscava várias qualidades em seus personagens, mimetizando a complexidade dos seres humanos. Desta forma, todos os personagens de Cassavetes possuem uma certa esquizofrenia.

Existem dois elementos recorrentes nos filmes de Cassavetes. Um é a sensação de constante improvisação, mesmo tendo consciência de que pouco é realmente improvisado. O outro elemento é a performance e o personagem como prioridade: a luz, os ângulos, os movimentos de câmera estão todos submetidos à performance e aos personagens. 

Desta forma, Cassavetes é o cineasta do personagem. Seus filmes, assim como seu método de produção, estão subjugados ao personagem; seus sentimentos, suas visões, seus ideais. Cada personagem cria sua própria identidade; não é criada para ela por elementos étnicos, físicos ou sociais. Assim, os personagens se revelam através de uma constante luta contra o tempo; seu peso e suas rotinas.

Uma Mulher Sob Influência é o terceiro filme da trilogia sobre casamentos, iniciada com Faces (1968) e Minnie and Moskowitz (1971). Conta a história da família Longuetti: Nick, sua esposa Mabel e seus três filhos. Dentro da família, a loucura de cada um é permitida, “Mabel não é louca, é diferente”, insiste Nick. Até que a sociedade conservadora (sugerida pela mãe de Nick) quebre com essa “harmonia instável” e mande Mabel para um tratamento psicológico.

Mabel aparece como uma mulher desesperada, mas corajosa o suficiente para não ceder à loucura, confrontando cada faceta da vida com seu marido, Nick. Em nenhum momento a insanidade de Mabel é constatada, é uma mulher cuja inusitada percepção do mundo a leva a acreditar e insistir na validade de seus sentimentos. E assim o espectador, assim como a família Longuetti, é forçado a participar da problemática experiência de sua vida.

O estudo que Cassavetes faz da família e das relações familiares vai contra a sistematização de experiências, ele explora o caos emocional e a tolerância pela desordem social. Os filmes resistem à estática, formulam maneiras de ordenar e apresentar interações sugerindo uma nova forma de ver a existência humana.

Carolina Gesser

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