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Glória ao Cineasta

  Glória ao Cineasta é uma comédia despretensiosa capaz de misturar cultura pop japonesa e uma influência de Monty Python e Irmãos Marx, brincando com convenções de gêneros cinematográficos.

     Não. Não é bem isso…

     É um filme sobre a dificuldade de realizar filmes, concatenar imagens que se convertam em significado, criar uma “idéia em cinema”.

     Não. Há mais do que isso.

     Um autor em crise, detentor de um legado que precisa ser perpetuado cinematicamente. Um individuo capaz de produzir, que tem a necessidade de criar, mas não sabe nem como começar. Um pouco como este texto.

     Como abordar a questão do autor no cinema? Pode-se demonstrar alguma categoria e recorrer a teóricos como Barthes, Foucault, quem sabe Deleuze. Também é de praxe discutir a política dos autores, como elaborada pelos Cahiers du Cinéma, Bazin, Truffaut, Godard, Rivette, etc. Para completar, exibe-se algum filme que bota em crise a condição do autor, revelando sua pertubada intimidade: impossível fugir de , de Fellini ou seus similares como Memórias, de Woody Allen, All That Jazz, de Bob Fosse ou Noite Americana, de François Truffaut. Todo essa canon já foi vastamente explorado e discutido, o que só aumenta a sua capacidade de construir significados novos. Contudo, essa sessão do Cineclube Rogério Sganzerla sugere algo mais explosivo, incosequente e anárquico.

     Três adjetivos que servem muito bem a Glória ao Cineasta. Adiciono ainda um quarto: pessoal, herdando uma suposta tradição gerada por Fellini. Takeshi Kitano é um grande astro, não só autor de filmes, mas também produtor, ator, apresentador de TV, pintor e escritor. Sua versatilidade aparece em seus filmes, que passeiam pelos mais diversos gêneros, da máfia em Brother ao épico em Zatoichi, do drama em Hana-Bi ao cômico em Getting Any?. Essa discrepância que dá o tom à primeira metade de Glória ao Cineasta: Takeshi não sabe o que fazer agora. Ele pena entre várias histórias para descobrir o que fazer agora que possui uma carreira bem estabelecida. O que o seu público (que nunca foi muito vasto) espera dele? Voltar a fazer filmes sobre a Yakuza, ou render-se à moda de filmes sobre o Japão na década de 70? Um romance moderno ou um filme inspirado em Ozu?

     A comicidade da busca de Takeshi obtem sua força principalmente da montagem, que sabe alongar um pouco mais os planos ou cortá-los na hora exata em que uma piada é capaz de explodir. A incapacidade de Kitano em satisfazer com qualquer uma dessas opções acaba gerando um filme absurdo, onde o nonsense impera, sobre uma dupla de rostos em um asteróide e seus simulacros malucos na Terra. Nessa segunda metade do filme, um enredo parece se delinear, mas os saltos entre os diferentes tipos de registro compromentem qualquer apreensão. Tudo é fugidio e rápido, logo algo insano virá tomar conta da tela e desviar nossa atenção da trama. 
Se a crise do Kitano autor é evidente, seu personagem é impassível. Boa parte disso se deve a sua paralisia facial (marca de uma acidente de moto), que o torna um dos melhores comediantes de cara séria (straight face) desde Buster Keaton. Sua inexpressão é ainda reforçada por seu duplo, um boneco idêntico a ele, que o substitui quando lhe convém. Ele é a âncora onde o filme se sustenta, tudo parece estar indo pelos ares, porém Takeshi Kitano permanece. É claro, ele é o rei desse mundo caótico que ele próprio criou. Sua crise é a premissa, seu filme é ele mesmo. 
 
Thiago Santana

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