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Os Olhos da Cidade São Meus

O gênero de Horror, um dos mais antigos da história do Cinema, é também um dos mais duradouros e populares, parecendo frequentemente surgir das cinzas e criar novos ciclos – Universal, Hammer, slashers, neo-slashers, etc (apenas para citar os mais populares). Mas, afinal, o que nos atrai nesse gênero e por que ele continua enchendo salas durante décadas e décadas? Por que as imagens de violência e horror nos são tão atrativas? Sem sair do gênero, podemos analisar essa questão em Os Olhos da Cidade São Meus.

No filme, vemos o filme de horror The Mommy. Uma mãe macabra e controladora submete seu filho a sessões de hipnose para que ele consiga olhos humanos para sua própria coleção, resultando em um banho de sangue. Talvez já tenhamos visto algo parecido no cinema – caçadores de alma, vampiros caçadores de sangue, ou mesmo serial killers sem grandes pinceladas sobrenaturais. A proposta de The Mommy, que até então não sabemos ser um filme dentro do filme, nos parece aceitável e vendável como um filme de horror – mas não é nessa esfera de o filme de Bigas Luna se destaca. Ele acrescenta um nível a mais: esse é um filme que se passa durante a exibição de um filme.

The Mommy, e consequentemente o próprio Os Olhos da Cidade, são exemplos de filmes de horror realista: não temos um monstro (tendo aqui como ‘monstro’ a definição do filósofo Noël Carroll em seu livro A Filosofia do Horror como um ser que não tem sua existência acreditada pela ciência contemporânea), mas sim psicopatas que são muito mais críveis a nós do que seres gosmentos de seis olhos e oito patas – a linha que nos divide é muito menor. Sendo assim, uma das possibilidades apontadas com menos reservas por Carroll como aquela que nos faria sentir interesse pelas imagens que nos causam medo ou repulsa – a curiosidade pelo monstro, quem ele é, o que é capaz de fazer e qual o ponto fraco pelo qual a humanidade boa poderia derrotá-lo – é quebrada.

Os serial killers banham essas histórias de horror realista com certo pessimismo, desde Psicose e Peeping Tom (que será apresentado mais tarde ainda nesse módulo), passando por filmes como O Silêncio dos Inocentes e incontáveis (neo-)slashers como O Massacre da Serra Elétrica – essas histórias não costumam acabar bem, vemos todos os dias em telejornais. Em uma ficção mais aproximada do ‘mundo fora do cinema’, a suspensão da incredulidade (pacto que fazemos ao entrar num cinema para assistir a um filme de ficção, passível de quebra a qualquer momento em que há uma ruptura na lógica que o filme propôs para si) vai para um nível diferenciado por estar esta ficção no ramo da possibilidade. Ainda assim, estamos protegidos pela segurança que esta tela nos dá. O que aconteceria, contudo, caso não tivéssemos um distanciamento da imagem no Cinema, ou se a ficção nos pungisse de forma real demais?

Yuri Cunha 

Sugestões de Leitura:

FREELAND, Cynthia A. Realist Horror in WARTENBERG, Thomas A. The Philosophy of Film. Oxford: Blackwell, 2005.

CARROLL, Noel. A Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração. Campinas: Papirus, 1999.

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