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Salve O Cinema

A multidão é o que vemos nas primeiras imagens de Salve o Cinema. No original, Salaam Cinema, da saudação árabe (Salaam Aleikum) que muito bem poderia ter-nos levado a um outro título. “Olá, Cinema”. Estamos em 1995, ano do centenário do ofício inaugurado pelos Lumière, e Makhmalbaf parece propor uma reaproximação, um reencontro com ele. Respondendo a seu anúncio de jornal, milhares de pessoas se apresentam. Todas querem ser atores (ou atrizes) do novo filme do diretor, filme esse sobre pessoas que desejam estar no cinema. Passados cem anos, a premissa é familiar: a câmara que filma a multidão, multidão essa atraída pela câmara porque deseja ver-se na imagem. Não é o cinema, como tanto se ouviu falar, a arte das multidões? Eis que surge um Makhmalbaf agitado, em meio a toda aquela gente, com um alto-falante em punho: “vocês estão aqui para participar de um filme, bem-vindos ao próprio filme”.

O filme de hoje surge num contexto de reencontro do Iran com seu cinema, impulsionado pela vitalidade de obras que buscam aceder às experiências de vida dos sujeitos justo pelo investimento na relação entre esses sujeitos e o próprio filme. Filmar alguém pressupondo que esse alguém está num filme, e irá lidar com essa situação de alguma forma. Lembremo-nos de Abbas Kiarostami (Close-up) e do próprio Makhmalbaf (Um instante de inocência), que recriarão histórias a partir de uma posta em cena daqueles que as viveram (ou bem as conhecem) de fato. Não se trata aqui de buscar o naturalismo, a reconstituição exata do sucedido, mas sim de contaminar o passado com o presente, a realidade com a representação, a vida com o cinema e o cinema com a vida. Porque ao mesmo tempo em que o filme recupera, remete ao passado, ele altera, reinventa a partir do presente da filmagem, da cena. Chegamos àquilo que em Salve o Cinema parece vir à tona de modo quase literal: uma série de “testes de cena” que valem eles mesmos como o filme. Os candidatos confrontarão suas expectativas – em relação a um possível filme que virá – com as ordens do diretor, que exige deles resposta imediata para um filme que acontece agora.

Makhmalbaf exige – de forma quase absurda – que riam, chorem, mintam, caiam, segundo ele mesmo, em nome de um amor ao cinema. A mesma razão pela qual a maioria dos candidatos diz estar lá. Permanecer no teste é permanecer no filme, e nisso parece basear-se o autoritarismo, a exigência e a rispidez de um diretor que busca por seus personagens de modo por vezes agressivo, deseducado e intimidante. Ao mesmo tempo, o corte parece valorizar aquelas pessoas que, de uma forma ou de outra, esboçam atitudes de insubordinação, fazem frente a essas exigências com uma resposta emocional própria, longe de ser passiva. Ao fim, a impressão é a de que o filme (e o cinema, por conseqüência) vale na medida em que cria espaço para essas emoções, reações, respostas que não apenas aquelas previstas, desejadas ou ensaiadas no set; injeta a indeterminação, o imprevisível, o “presente”, a vida no jogo de cartas mais ou menos marcadas da representação. Lançando mão de uma outra possível leitura do título em português, Mohsen Makhmalbaf parece querer – por que não – salvar o cinema de sua própria estagnação, torná-lo estranho outra vez para que possamos reencontrá-lo, reconhecê-lo, redescobri-lo. Comecemos por saudá-lo.

Fábio Menezes

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