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80 anos de Glauber Rocha

“O sonho é o único direito que não se pode proibir”, escreveu Glauber Rocha, no seu célebre manifesto “Eztetyca do Sonho”, de 1971. O cineasta, que completaria 80 anos neste mês, realizou filmes que mais pareciam transes: envolvidos pelo imaginário religioso, pela cultura popular nordestina e pelos principais dilemas da história brasileira.

Seu objetivo queria descolonizar nossos olhares das chanchadas importadas dos EUA e responder ao dilema: como criar um cinema para um país subdesenvolvido? E que possa transpor tais problemas? A mística era a linguagem da rebelião, e uma estética da violência é a única cabível a uma nação que não conseguiu transpor o problema mais básico da fome. E não consegue até hoje.

São tramas potentes de trabalhadores, santos, guerreiros, cangaceiros, deuses e diabos envolvidos na luta pela terra, contra a miséria e a injustiça, entre outros problemas que atravessam a história do nosso país. Nos seus filmes a razão é suspensa: só há espaço para o onírico, porque a fome por si só é uma situação absurda. E curiosamente foi através de tais sonhos que ele se tornou o principal cineasta que trouxe no audiovisual a força da tradição dos povos brasileiros, realizando na imagem uma façanha que os modernistas se empenharam em concretizar décadas antes na literatura.

A originalidade de Glauber elevou sua importância a nível de cinema mundial, sendo respeitado e inspirando cânones como Jean Luc Godard e Martin Scorsese.

Durante o mês de março e parte do mês de abril celebraremos o octogenário de Glauber com quatro importantes filmes da sua obra, com sessões seguidas de debate e algumas com convidados especiais, comentando um pouco mais sobre esse diretor fundamental para o Brasil. As sessões ocorrem sempre na Sala de Projeção do Bloco D do CCE, às 19h, nas terças-feiras.

Confira a agenda:

Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964, 120min – dia 19 de março às 19 horas, na Sala de Projeção do Bloco D do CCE.

O vaqueiro Manuel se revolta contra a exploração de que é vítima por parte do coronel Morais. Foge com a esposa Rosa da perseguição dos jagunços e acaba se integrando aos seguidores do beato Sebastião, no lugar sagrado de Monte Santo, que promete a prosperidade e o fim dos sofrimentos através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Ao mesmo tempo, o matador de aluguel Antônio das Mortes, a serviço dos coronéis latifundiários e da Igreja Católica, empreende uma caça aos seguidores do beato. Em nova fuga, Manoel e Rosa se juntam a Corisco, o diabo loiro, companheiro de Lampião que sobreviveu ao massacre do bando, perseguido por Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros.

O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro, 1969, 100min – dia 26 de março às 19 horas, na Sala de Projeção do Bloco D do CCE.

Coirana e um grupo de cangaceiros invadem o Jardim das Piranhas ameaçando instalar o caos. Apesar da oposição do coronel Horácio, Matos contrata Antonio das Mortes para exterminar o bando. Em Jardim das Piranhas, o clima é tenso, o delírio de grandeza do Coronel, as ambições políticas do delegado, a desilusão do professor, a solidão triste de Laura, e a crise mística do padre. Após duelar com Coirana e vencê-lo, Antonio das Mortes recebe uma revelação da Santa e passa a agir em nome de seus conceitos de moral e justiça. Unindo-se ao Professor, elimina os jagunços de Mata Vaca, contratados pelo coronel Horácio.

Terra em Transe, 1967, 106min – dia 02 de abril às 19 horas, na Sala de Projeção do Bloco D do CCE.

Vigorosa e visionária alegoria política sobre o Brasil e a América Latina tendo como temas centrais o populismo, as utopias libertárias de esquerda e o concerto barroco de diversas culturas (africana, índia, branca), Terra em Transe tem um entrecho ficcional que já antecipa o questionamento de Glauber às noções ainda resistentes de trama e narrativa. Abolindo a ordem cronológica e adotando um acento fortemente operístico e carnavalizante, é um dos filmes-manifesto do Cinema Novo. A “história” se passa em Eldorado, país imaginário da América Latina, onde o poeta e intelectual burguês Paulo Martins vê frustrar-se a sua esperança de que o Governador da Província de Alecrim e líder político Dom Felipe Vieira seria uma alternativa política ao conservador Dom Porfírio Diaz, ditador fascista que apela ao misticismo para preservar o poder. Entre estes, se interpõe a figura do capitalista Júlio Fuentes, que apesar de se declarar de esquerda acaba se aliando ao ditador Diaz. Ao lado de Sara, uma intelectual comunista, Paulo Martins não vê outra solução a não ser a violência revolucionária suicida.

O Leão de Sete Cabeças, 1970, 99min – dia 09 de abril às 19 horas, na Sala de Projeção do Bloco D do CCE.

O guerrilheiro latino-americano Pablo e o líder negro Zumbi unem-se para libertar o continente africano do jugo dos colonizadores. Durante sua luta, enfrentam um mercenário alemão que, auxiliado por um agente americano e seu assessor português, governa em nome de uma misteriosa mulher chamada Marlene. Enquanto isso, a epopeia dos dois heróis é observada por um onipresente pregador messiânico que anuncia a chegada da Besta capaz de derrotar os santos e impedir a vinda dos insurgentes como emissários da justiça divina.

Em caso de dúvidas, entre em contato com o CRS através das nossas redes sociais ou do nosso email: cineclubesganzerla.cinema@contato.ufsc.br. Esperamos você nas sessões.